Uma Amendoeira ImagináriaNão tenho uma amendoeira em minha janela e nem posso descortinar a Lagoa por entre os galhos desta frondosa amendoeira. Minha janela dá para a parede de um prédio vizinho, pouco acrescentando de beleza a este cenário que me dirige para o mundo. Sendo assim, nada de pássaros, nada de ninhos, nada da magia que vem deste vão aberto, dando margem à fantasia do voar sem direção?

Por incrível que pareça, nesta janela, recebo a visita de pardais e bem-te-vis, e ao longe posso ouvir o canto de um sabiá, que tanto inspirou nosso poeta em seu momento de exílio. Outro dia, estava tomando meu café e uma ousada andorinha pousou na janela aberta e fez uma rápida inspeção ao espaço, procurando os galhinhos das plantas para, talvez, sua primeira refeição. E logo uma Andorinha, que há tempos não tinha a oportunidade de ver, fugidias de uma cidade que só as faz desejar o exílio. Mas esta volta inesperada por acaso revela uma cidade mais ecológica ou apaziguada? Na certa, não, mas de alguma forma as andorinhas puderam estar de volta, com o encanto de sua plumagem.

Tudo isto para dizer que qualquer janela pode ser o enquadramento perfeito para fazer habitar em sua casa seres fantásticos, cobertos de plumagens e cantadores de alta linhagem, ou então para fazer despertar em você um encantamento que vem do criar e do sonhar. Esta casa que você habita é capaz de construir a moldura perfeita para uma amendoeira imaginária que leva você a voos impensáveis, como as mangueiras de minha infância, fazendo uma sombra refrescante e acolhedora para as suculentas frutas caídas no chão. Eu adorava pegar a manga por inteiro, para saboreá-la aos poucos, deixando o suco escorrer até por meus braços. Esta é uma árvore imaginária, mas tão viva em minha lembrança, e despertada por um simples enquadramento num vão vazio. É assim, penso eu, que podemos chegar ao mais remoto de nós mesmos, trazendo lembranças de personagens e espaços que habitam em nós afetivamente e que são trazidas ao momento atual como num passe de mágica, abrigando a mesma emoção de épocas anteriores.

Penso que não é por acaso que eu esteja falando de árvores reais ou imaginárias para traduzir um sentimento que me veio ao conhecer o cartão de Natal do CVI-Rio, com uma árvore estilizada formada por um emaranhado de ramos, que se entrelaçam para dar-lhe a consistência de uma árvore, propriamente dita, mas que, ao mesmo tempo, deixa espaços vazios para fazer circular o ar e ventilar o todo. Isto me levou imediatamente à lembrança de uma velha figueira que já estava lá, firme e frondosa, no espaço em que o CVI-Rio foi criado e que sempre nos acompanhou, estendendo seus galhos sobre nosso teto para acolher as pessoas, e espalhar um frescor para nos proteger do calor excessivo. Esta figueira centenária finalmente tombou, no momento em que nos mudamos para um novo espaço, quando nossa intervenção para sua sobrevivência não foi respeitada. Uma nova estação do Metrô estava sendo construída, levando suas máquinas gigantes a derrubar tudo o que era vivo naquele espaço.

No entanto, a velha fiqueira não deixou de existir. Permanece como uma lembrança viva destes anos de convivência, simbolizando que o CVI-Rio pode absorver esta seiva forte, criando raízes para sua sustentação e lançando ramos entrelaçados, tão diversificados como as relações que se formaram, e ao mesmo tempo, tão simbólicos quanto a sua missão de promover a visão social inclusiva e reconhecer, consequentemente, a diversidade humana.

Por Lilia Pinto Martins




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