{"id":7674,"date":"2018-03-20T11:23:00","date_gmt":"2018-03-20T14:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/?p=7674"},"modified":"2018-03-20T11:23:00","modified_gmt":"2018-03-20T14:23:00","slug":"por-que-somos-invisiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/por-que-somos-invisiveis\/","title":{"rendered":"Por que somos invis\u00edveis?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Este texto teve origem na minha fala no Evento \u201cDi\u00e1logos Mulheres em Movimento \u2013 Da invisibilidade a transversalidade\u201d, ocorrido no dia 07\/03\/2018, no Teatro Cacilda Becker, RJ. O convite partiu do CVI Rio, que promoveu o Evento em comemora\u00e7\u00e3o ao Dia Internacional da Mulher. Minha Mesa tratou do tema, \u201cCorpo e Identidade do feminino\u201d. Entretanto n\u00e3o me prendi a quest\u00e3o de g\u00eanero. Suscitei a partir de um olhar psicanal\u00edtico, algumas quest\u00f5es que julgo pertinentes a respeito da invisibilidade social das pessoas com defici\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-7676\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Invisivel.jpg\" alt=\"Por que somos invis\u00edveis?\" width=\"377\" height=\"390\" srcset=\"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Invisivel.jpg 377w, https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Invisivel-290x300.jpg 290w\" sizes=\"auto, (max-width: 377px) 100vw, 377px\" \/>Embora vivamos em sociedade, dentro de uma determinada cultura e consequentemente afetados por tudo o que nos cerca, n\u00e3o perdemos com isso a nossa singularidade. Vemos o mundo cada qual com a sua pr\u00f3pria lente, e a psican\u00e1lise \u00e9 uma ci\u00eancia\/arte que desperta e faz o sujeito responsabilizar-se pelo seu destino, por sua forma \u00fanica de estar no mundo, e principalmente pelo seu desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final do s\u00e9culo XIX, Freud constata que todas as neuroses tem um conte\u00fado sexual e que diferentemente do que acreditou num primeiro momento, os fatos geradores do aparecimento das neuroses, n\u00e3o necessariamente ocorriam na realidade, mas estavam relacionados \u00e0s fantasias. Tal constata\u00e7\u00e3o faz Freud passar da sua Teoria do Trauma para a Teoria da Fantasia ainda em 1897, levando-o posteriormente \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do Complexo de \u00c9dipo. E \u00e9 sobre a quest\u00e3o da fantasia que eu quero falar, mas me permitam fazer uma digress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bebe humano diferente dos outros animais nasce completamente desprotegido. Ele precisa ser amparado por aqueles que desempenham o papel de pais, pois caso contr\u00e1rio ele n\u00e3o sobrevive. Ele nasce tamb\u00e9m no discurso do Outro, do desejo do Outro. Quando o bebe nasce ele j\u00e1 tem um lugar no mundo, n\u00e3o s\u00f3 social, pois ele \u00e9 fruto de uma determinada \u00e9poca, de uma determinada cultura, mas antes de tudo ele \u00e9 falado. Vai ser menino, vai ser menina, vai se chamar x conforme a av\u00f3 e por assim em diante. Mas isso s\u00f3 n\u00e3o basta. Diferentemente dos animais, ao entrarmos na cultura, perdermos nossos instintos e passamos a ser seres pulsionais. O instinto garante ao animal a certeza de que h\u00e1 um objeto para cada uma de suas necessidades. Assim, para a fome a comida, para a sede \u00e1gua e etc. Com o ser falante \u00e9 diferente. A puls\u00e3o clama por saciedade o tempo todo, mas essa satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre parcial e os objetos para lhes satisfazer s\u00e3o in\u00fameros. J\u00e1 diz o poeta, \u201cvoc\u00ea tem fome de que\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o banho de linguagem que marca simbolicamente o sujeito, n\u00e3o d\u00e1 conta de tudo. H\u00e1 sempre uma falta como nos dizia Lacan ou como antes nos ensinou Freud, estamos todos submetidos \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. S\u00f3 podemos desejar porque algo nos falta. Quando nascemos, s\u00f3 temos uma \u00fanica certeza, que temos prazo de validade, que somos seres finitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto o que nos falta n\u00e3o sabemos e \u00e9 a\u00ed que entra a fantasia, como um v\u00e9u que deforma a realidade e que nos possibilita fazer la\u00e7os sociais, de uma forma absolutamente singular. Como n\u00e3o sabemos o que nos falta e como muito menos sabemos o que o Outro quer de n\u00f3s, fantasiamos a partir das marcas que nos s\u00e3o dadas, mesmo antes de nascermos, como falei anteriormente. Experimente pedir para um grupo de pessoas que assistiram juntas a um determinado fato para relatar o ocorrido. Voc\u00ea ver\u00e1 que cada qual vai fazer o seu relato sob um determinado \u00e2ngulo, sendo dif\u00edcil por vezes acreditar que realmente estivessem juntos quando o fato se deu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando a Freud, e agora j\u00e1 em 1930, ocasi\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o de seu livro, \u201cO Mal Estar na Cultura\u201d, ele vai demonstrar que embora seja o princ\u00edpio do prazer que vai estabelecer a finalidade da vida, que \u00e9 ele que domina o aparelho ps\u00edquico desde o inicio, esse princ\u00edpio se encontra em desacordo com o macro e o microcosmo. Diz Freud: \u201c<em>podemos dizer que a inten\u00e7\u00e3o de que o homem seja \u201cfeliz\u201d n\u00e3o se acha no plano da Cria\u00e7\u00e3o\u201c.<\/em> E continua dizendo, que a felicidade \u00e9 sempre espor\u00e1dica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Freud tr\u00eas raz\u00f5es impedem ao homem de ser feliz. A primeira delas \u00e9 o padecimento inerente ao corpo f\u00edsico, a segunda \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel controlar os desastres naturais, fonte de destrui\u00e7\u00e3o e sofrimento para todos, e a terceira \u00e9 a inadequa\u00e7\u00e3o para lidar com as regras impostas para regular a conviv\u00eancia humana na fam\u00edlia no Estado e na Sociedade, ou melhor dizendo o problema \u00e9 o Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para as duas primeiras raz\u00f5es de mal-estar, ou seja, o padecimento do corpo e o controle da natureza, o homem cria a ci\u00eancia. Se por um lado devemos comemorar as boas novas que a ci\u00eancia nos tr\u00e1s, pois, \u00e9 ineg\u00e1vel, que muita dor e sofrimento s\u00e3o evitados gra\u00e7as aos avan\u00e7os cient\u00edficos, por outro lado, esse cientificismo tende a n\u00e3o ouvir o sujeito, atendendo a todos as suas demandas sem escutar o que est\u00e1 por tr\u00e1s daquele \u201csofrimento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui me socorro do livro, \u201cO intoler\u00e1vel peso da feiura\u201d*, onde a autora analisa o discurso corrente reproduzido pelas pessoas que foram por ela entrevistadas a respeito de cirurgias pl\u00e1sticas e emagrecimento. Segundo Vilhena, o discurso recorrente \u00e9 o de que: \u201cs\u00f3 \u00e9 gordo quem quer\u201d, ou \u201cs\u00f3 \u00e9 feio quem n\u00e3o se cuida\u201d. \u00c9 como se a ci\u00eancia estivesse a\u00ed pra dar ao sujeito meios de apagar a sua falta, a sua diferen\u00e7a. Como se fosse poss\u00edvel, num mundo cient\u00edfico almejado n\u00e3o existir castra\u00e7\u00e3o. Logo, se a pessoa continua gorda, feia, velha \u00e9 porque quer e como \u00e9 angustiante se defrontar com a castra\u00e7\u00e3o que \u00e9 inerente a condi\u00e7\u00e3o humana, essas pessoas devem ser alijadas, e n\u00e3o o sendo ser\u00e3o objeto de chacotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como se comportar frente \u00e0 defici\u00eancia?\u00a0 Por mais que a ci\u00eancia avance, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel eliminar a marca real sobre o corpo das pessoas com defici\u00eancia. Esses corpos s\u00e3o marcados de forma mais radical pela falta, lembrando a todos sua perenidade. Diferentemente daqueles que \u201cdisp\u00f5em\u201d de uma infinidade de recursos para driblar essa falta, com a defici\u00eancia isso n\u00e3o pode ser assim. A cadeira de rodas aparece, a falta de vis\u00e3o ou audi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser maquiada.\u00a0 Como ent\u00e3o lidar com as pessoas que trazem como brasa em seus corpos os efeitos dessa falta? Como lidar com a ang\u00fastia de poder remotamente ver em seu pr\u00f3prio corpo essa marca, j\u00e1 que uma defici\u00eancia permanente pode acometer a qualquer um em qualquer momento de sua vida. Podemos dizer que a defici\u00eancia \u00e9 democr\u00e1tica, n\u00e3o escolhe ra\u00e7a, g\u00eanero, classe social. Pode estar na pr\u00f3xima esquina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual o recurso ent\u00e3o para se lidar com esse incomodo? Penso que tornando as pessoas com defici\u00eancia invis\u00edveis socialmente. Nada como um dito popular para elucidar o \u00f3bvio: \u201co que os olhos n\u00e3o veem o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente\u201d. Dispensa-se a esse segmento, o que eu classifico como uma <em>invisibilidade respeitosa.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferentemente das pessoas qualificadas como fora da norma social, que s\u00e3o geralmente objeto de deboche ou at\u00e9 de \u00f3dio, h\u00e1 certa defer\u00eancia para com as pessoas com defici\u00eancia. Essa defer\u00eancia \u00e9 tamanha, que se criam neologismo para falar dela. Passamos a ser \u201cpessoas especiais\u201d ou \u201cpessoas que t\u00eam necessidades especiais\u201d. Costumamos ouvir: \u201cFulano tem um filho especial\u201d. Ora, algum filho n\u00e3o \u00e9 especial para cada pai ou m\u00e3e? Ou de forma a negar radicalmente a diferen\u00e7a, aliam aos feitos das pessoas com defici\u00eancia o significante SUPERA\u00c7\u00c3O. Sim, n\u00e3o h\u00e1 mat\u00e9ria em qualquer tipo de m\u00eddia que ao descrever desde as coisas mais simples as mais fant\u00e1sticas realizadas por quem tem uma defici\u00eancia, que n\u00e3o as classifiquem como um ato de supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Superar que a\u00e7\u00e3o, pergunto eu? Da castra\u00e7\u00e3o? N\u00e3o, n\u00e3o superamos essa a\u00e7\u00e3o, primeiro porque ela \u00e9 estrutural e segundo porque sem a falta n\u00e3o h\u00e1 desejo. Somos assim obrigados a lidar singularmente com os efeitos dessa marca a mais que trazemos em nossos corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agimos como o turista que comprou um pacote para um lugar de praia, s\u00f3 que o tempo n\u00e3o colaborou e ao inv\u00e9s de sol o tempo fechou. O que fazer? Desistir da viagem? \u00c9 um direito do viajante. Reclamar da falta de sorte? Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel. Mas pode-se ainda aproveitar para curtir outras possibilidades que n\u00e3o a programada. Lacan chamava isso de \u201csaber fazer com a falta\u201d ou <em>savoir<\/em> <em>faire.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E entre \u201cespecial\u201d e \u201cdefici\u00eancia\u201d, fico ent\u00e3o com o segundo significante, porque na (d)efici\u00eancia, comporta a efici\u00eancia, e efici\u00eancia \u00e9 justamente a capacidade de realizar tarefas ou trabalhos de modo eficaz e com o m\u00ednimo. Fazemos isso? Nem sempre, mas acho que tentamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por <em>Maria Paula Teperino \u2013 Psicanalista &#8211; Mar\u00e7o de 2018<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">* \u201cO intoler\u00e1vel peso da feiura \u2013 Sobre as mulheres e seus corpos\u201d \u2013 Joana de Vilhena Novaes \u2013 Editora PUC RIO.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto teve origem na minha fala no Evento \u201cDi\u00e1logos Mulheres em Movimento \u2013 Da invisibilidade a transversalidade\u201d, ocorrido no dia 07\/03\/2018, no Teatro Cacilda Becker, RJ. O convite partiu do CVI Rio, que promoveu o Evento em comemora\u00e7\u00e3o ao Dia Internacional da Mulher. Minha Mesa tratou do tema, \u201cCorpo e Identidade do feminino\u201d. Entretanto n\u00e3o me prendi a quest\u00e3o de g\u00eanero. 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