{"id":6698,"date":"2017-01-24T09:35:08","date_gmt":"2017-01-24T12:35:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/?p=6698"},"modified":"2017-01-24T09:52:12","modified_gmt":"2017-01-24T12:52:12","slug":"revolucao-e-down-jovens-rompem-as-barreiras-do-mercado-e-derrubam-o-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/revolucao-e-down-jovens-rompem-as-barreiras-do-mercado-e-derrubam-o-preconceito\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 Down: jovens rompem as barreiras do mercado e derrubam o preconceito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-6699\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/A-baiana-Cacai-virou-vlogger-e-realizou-o-sonho-de-ser-famosa-Foto-Jo\u00e3o-Bertholini-e-Marco-Aur\u00e9lio.jpg\" alt=\"A baiana Cacai virou vlogger e realizou o sonho de ser famosa (Foto: Jo\u00e3o Bertholini e Marco Aur\u00e9lio)\" width=\"486\" height=\"434\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma youtuber com 173 mil inscritos em seu canal, um campe\u00e3o brasileiro de polo aqu\u00e1tico, uma modelo de uma das maiores empresas de maquiagem do mundo, um chef de cozinha formado por uma renomada faculdade do pa\u00eds. Criada com estimula\u00e7\u00e3o e incentivo, uma nova gera\u00e7\u00e3o de jovens com s\u00edndrome de Down rompe as barreiras do mercado de trabalho e derruba o maior obst\u00e1culo para seu desenvolvimento: o preconceito<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela quer se tornar estrela de cinema e TV. Mas, como boa jovem da gera\u00e7\u00e3o Y, faz sucesso mesmo \u00e9 na internet. Cacai Bauer \u00e9 a primeira youtuber brasileira com s\u00edndrome de Down e n\u00e3o tem a menor vergonha de expor sua condi\u00e7\u00e3o na rede social. Irreverente e bem-humorada, a baiana de 22 anos, que se inspira em celebridades digitais como K\u00e9fera e Isaac do Vine, posta v\u00eddeos semanalmente. Neles, promove sess\u00f5es de perguntas e respostas aos espectadores, divide sua hist\u00f3ria e faz dublagens com par\u00f3dias divertidas de funks. \u201cSou Diva\u201d, a vers\u00e3o sem mal\u00edcia do hit \u201cBumbum Granada\u201d, dos MCs Zaac e Jerry, por exemplo, j\u00e1 soma mais de 600 mil visualiza\u00e7\u00f5es. \u201cSo-sou diva sim e da\u00ed \/ Beleza \u00e9 o meu lema \/ O sol nasceu para mim \/ Ser Down n\u00e3o \u00e9 um problema\u201d, canta. \u201cEu sou diva, diva, diva, diva, diva, diva, sim \/ Eu sou gata, gata, gata, gata, gata, gata-ta.\u201d Em todas as postagens, a mensagem \u00e9 clara: a miss\u00e3o da baiana \u00e9 combater o preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como muitos beb\u00eas de sua gera\u00e7\u00e3o, Cacai recebeu uma senten\u00e7a de desengano dos m\u00e9dicos no momento em que nasceu. \u201cLogo ap\u00f3s o parto, mostraram que era uma menina e que estava tudo bem. Senti alegria e al\u00edvio. A\u00ed levaram Cacai para uma sala e n\u00e3o me falaram nada sobre sua condi\u00e7\u00e3o\u201d, conta a m\u00e3e, a dona de casa Janaina Bauer, 43 anos. \u201cMais tarde, quando j\u00e1 estava no quarto, meu pai entrou chorando. Depois, meu marido e minha m\u00e3e. A princ\u00edpio, achei que fosse de emo\u00e7\u00e3o. Mas a neonatologista que estava com eles disse que minha filha tinha s\u00edndrome de Down. Na sequ\u00eancia, despejou que ela precisaria de muitos tratamentos, teria uma vida limitada e que eu teria de viver para ela. Foi um choque. A maneira com que a m\u00e9dica falou tudo isso foi cruel, n\u00e3o consegui entender nada. Tanto que, quando levaram a beb\u00ea para o quarto, olhei para o ber\u00e7o e voltei a assistir \u00e0 TV. S\u00f3 fui chorar em casa. A ficha demorou uns tr\u00eas meses para cair.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cacai, no entanto, contrariou as expectativas sombrias. \u201cO momento mais emocionante das nossas vidas foi quando ela conseguiu segurar um objeto pela primeira vez. Est\u00e1vamos brincando e dei uma escova de cabelo em suas m\u00e3os. Chorei de alegria\u201d, conta Janaina. Na \u00e9poca, Cacai tinha 6 meses e os manuais de desenvolvimento dos beb\u00eas preveem que possam fazer isso aos 4. Logo que come\u00e7ou a andar e falar, ao longo do primeiro ano de vida, a menina se mostrou desenvolta. Desde pequena gosta de dan\u00e7ar e diz que vai ser famosa. Fez aulas de teatro e, no ano passado, afirma que realizou o grande sonho de sua vida: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCc4habxHdIVk80-Zwwb0xew\" target=\"_blank\">lan\u00e7ou um canal de v\u00ed\u00addeos no YouTube<\/a>. Em dezembro, j\u00e1 tinha 173 mil inscritos. \u201cN\u00e3o tem nada que deixe a Cacai mais feliz do que ser reconhecida na rua e, agora, sempre que a gente sai, algu\u00e9m pede para tirar uma foto com ela\u201d, conta a m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a audi\u00eancia, o espa\u00e7o tornou-se uma refer\u00eancia para fam\u00edlias que convivem com a s\u00edndrome ou com outros tipos de defici\u00eancia. Janaina diz que recebe mensagens de todo o pa\u00eds com d\u00favidas e palavras de apoio. \u201cSempre falo: nunca tratamos Cacai como coitadinha. Ela sabe que tem Down, mas nem por isso se sente diferente dos irm\u00e3os Luiza, 18, e Caio, 14.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a maior parte dos coment\u00e1rios deixados pelos seguidores seja encorajadora, a youtuber n\u00e3o est\u00e1 livre dos haters. Para proteg\u00ea-la, a fam\u00edlia faz um filtro e edita as mensagens. \u201cApagamos as muito agressivas\u201d, afirma a m\u00e3e. Uma delas dizia que pessoas com s\u00edndrome de Down deveriam morrer. \u201cOs pr\u00f3prios f\u00e3s s\u00e3o os defensores\u201d, lembra. Um deles chegou a procurar os pais de um adolescente que postou mensagens agressivas, que o obrigaram a se retratar publicamente. \u201cEla nunca sofreu bullying, nem na escola regular. Essas mensagens da internet s\u00e3o novidade\u201d, diz Janaina. \u201cOutro dia leu que algu\u00e9m a chamou de feia e a rea\u00e7\u00e3o foi bem a cara dela: disse que ia ignorar. A \u00fanica coisa que deixa Cacai realmente triste \u00e9 ver eu e meu marido discutindo\u201d, garante a m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sucesso na internet elevou n\u00e3o apenas a autoestima de Cacai como ajudou em seu desenvolvimento. \u201cEla n\u00e3o tem muita no\u00e7\u00e3o temporal, \u00e9 algo que precisamos trabalhar. Mas j\u00e1 aprendeu que segunda-feira \u00e9 dia de postar v\u00eddeo novo\u201d, pontua Janaina. Vaidosa, Cacai tamb\u00e9m come\u00e7ou a fazer dieta para se sentir mais bonita nos v\u00eddeos. O cotidiano ainda inclui uma escola especial para jovens e adultos \u2013 ela estudou em col\u00e9gios regulares at\u00e9 o fim do Ensino Fundamental. Foi l\u00e1 que conheceu Tino, que tem paralisia cerebral e uma leve defici\u00eancia intelectual, com quem namora h\u00e1 um ano. \u201cEles s\u00f3 pegam na m\u00e3o um do outro, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 superinocente\u201d, afirma Janaina.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6701\" class=\"thumbnail wp-caption alignleft\" style=\"width: 286px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6701\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Jo\u00e3o-Bertholini-e-Marco-Aur\u00e9lio.jpg\" alt=\"(Foto: Jo\u00e3o Bertholini e Marco Aur\u00e9lio)\" width=\"276\" height=\"432\" \/><figcaption class=\"caption wp-caption-text\">(Foto: Jo\u00e3o Bertholini e Marco Aur\u00e9lio)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mudan\u00e7a de paradigma<\/strong><br \/>\nV\u00e1rios jovens, como Cacai, est\u00e3o rompendo com os progn\u00f3sticos que receberam no nascimento e que ainda fazem parte do imagin\u00e1rio que se tem sobre a s\u00edndrome de Down. Ela \u00e9 uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica causada por um erro na divis\u00e3o celular. Em vez de dois cromossomos 21, os Downs possuem tr\u00eas. Isso resulta em olhos amendoados, baixo t\u00f4nus muscular e defici\u00eancia intelectual \u2013 al\u00e9m de maior probabilidade de complica\u00e7\u00f5es como cardiopatia, problemas auditivos e hipotireoidismo. Com o avan\u00e7o no conhecimento, as interven\u00e7\u00f5es passaram a ser feitas cada vez mais cedo e a expectativa de vida cresceu de 25 anos (at\u00e9 os anos 70) para mais de 60 nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<div class=\"frase-materia componente_materia expandido\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"frase\"><strong>&#8220;Cozinho de tudo, mas massas e risotos s\u00e3o a minha especialidade\u201d &#8211;\u00a0<\/strong><strong>Pedro Brand\u00e3o Carrera, 21 anos<\/strong><\/div>\n<div class=\"frase\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gera\u00e7\u00e3o de Cacai teve a sorte de vir ao mundo num momento em que os benef\u00edcios de estimula\u00e7\u00e3o precoce j\u00e1 eram comprovados pela ci\u00eancia e que celebridades e novelas passaram a tratar do assunto publicamente. No Brasil, o marco da revolu\u00e7\u00e3o aconteceu em 2006, quando a TV Globo exibiu a novela &#8220;P\u00e1ginas da Vida&#8221;, que trazia Clarinha, uma menina com Down. Quase ao mesmo tempo, o ent\u00e3o jogador de futebol Rom\u00e1rio, hoje senador pelo PSB do Rio de Janeiro, fez diversas apari\u00e7\u00f5es na m\u00eddia com a filha, Ivy, que tamb\u00e9m tem Down, e passou a militar pela causa. \u201cFoi a\u00ed que a sociedade percebeu que a s\u00edndrome n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo\u201d, diz Estef\u00e2nia Lima, membro do Grupo de Trabalho de Inclus\u00e3o do Instituto Alana. No mesmo ano, a ONU organizou a primeira Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos de Pessoas com Defici\u00eancia em Nova York. O evento ratificou a import\u00e2ncia de mudar a abordagem. \u201cO tratamento passou de m\u00e9dico para social\u201d, diz Estef\u00e2nia. \u201cAntes, a ideia era a de que havia um \u2018defeito\u2019 a ser corrigido. Hoje, n\u00e3o mais. Focamos nas barreiras que precisam ser quebradas e nas adequa\u00e7\u00f5es pelas quais a sociedade precisa passar.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_6703\" class=\"thumbnail wp-caption alignright\" style=\"width: 273px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6703\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Jo\u00e3o-Bertholini-e-Marco-Aur\u00e9lioo.jpg\" alt=\"(Foto: Jo\u00e3o Bertholini e Marco Aur\u00e9lio)\" width=\"263\" height=\"406\" \/><figcaption class=\"caption wp-caption-text\">(Foto: Jo\u00e3o Bertholini e Marco Aur\u00e9lio)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gera\u00e7\u00e3o Millennial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paulistano Pedro Brand\u00e3o Carrera, 21 anos, tamb\u00e9m descobriu nas redes sociais uma forma de divulgar o que aprendeu na faculdade de gastronomia. Come\u00e7ou mostrando no Facebook o passo a passo de alguns pratos e, recentemente, criou o canal Comidinhas do Pep\u00ea no YouTube. \u201cGosto de cozinhar de tudo, mas massas e risotos s\u00e3o minha especialidade\u201d, diz o chef. Mas isso se tornou apenas um passatempo. Pedro acabou de ser contratado por um dos bares mais tradicionais da Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, como assistente de cozinha. Ele j\u00e1 havia feito est\u00e1gio em dois restaurantes quando soube por um amigo que o Piraj\u00e1 inauguraria uma unidade e mandou um curr\u00edculo. Deu certo. Ficou t\u00e3o feliz que, \u00e0s voltas com a abertura da primeira conta banc\u00e1ria, passou a dizer onde vai empregar o sal\u00e1rio. \u201cQuero casar, ter dois filhos e pagar as contas da casa\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em uma fam\u00edlia que batalhou por sua inser\u00e7\u00e3o, cresceu rodeado de crian\u00e7as que n\u00e3o tinham Down. Estudou na Escola da Vila, conhecida pela postura progressista e pelo trabalho de inclus\u00e3o. Pedro rendia bem e tinha uma por\u00e7\u00e3o de amigos. Os problemas surgiram na adolesc\u00eancia, quando ele come\u00e7ou a se interessar pelas meninas da classe. \u201cEle s\u00f3 ficava com uma delas, que tamb\u00e9m tinha Down, mas n\u00e3o se conformava com isso. Virou uma quest\u00e3o\u201d, afirma a m\u00e3e, a pediatra Ana Claudia Brand\u00e3o, de 51 anos . Por isso, engajou-se em um grupo com vi\u00e9s terap\u00eautico, focado na s\u00edndrome, onde eram discutidos temas como empoderamento, formas de estimular a independ\u00eancia, sexualidade e uso das redes sociais.\u00a0 \u201cFalavam que Pedro seria meu eterno companheiro, mas nunca aceitei essa ideia. Lutei para que ele tivesse autonomia e vida pr\u00f3pria\u201d, diz Ana Claudia. \u201cSempre desejei que fosse querido e tivesse grandes amizades. Por isso, fazia quest\u00e3o de ser \u2018arroz de festa\u2019 e o levava todas as vezes que convidavam.\u201d<\/p>\n<div class=\"frase-materia componente_materia expandido\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"frase\"><strong>&#8220;Fiquei muito feliz em ser modelo de uma campanha\u201d \u00a0&#8211;\u00a0<\/strong><strong>Samanta Quadrado, 28 anos<\/strong><\/div>\n<div class=\"frase\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A surpresa aconteceu quando a escola alegou que o Ensino M\u00e9dio seria complexo demais e Pedro \u2013 al\u00e9m de outros dois jovens Down \u2013 n\u00e3o poderia continuar. Apesar da insist\u00eancia das fam\u00edlias, a quest\u00e3o s\u00f3 foi pacificada com a interfer\u00eancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico, que entendeu que negar matr\u00edcula seria ilegal. \u201cHouve muita conversa. Mas o mais dif\u00edcil foi ter de lidar como se fosse uma briga\u201d, lembra a diretora da escola, Vania Marincek. \u201cNo primeiro momento, n\u00e3o conseguimos pensar em como viabilizar a continuidade e propusemos que frequentassem a escola, mas n\u00e3o todos os dias, nem que ficassem o tempo todo em sala de aula.\u201d Vania explica que o impasse aconteceu porque os tr\u00eas foram os primeiros com defici\u00eancia intelectual a conclu\u00edrem o Ensino Fundamental no local. Pedro teve dificuldades no novo ciclo, mas com abordagens diferenciadas n\u00e3o desistiu e se esfor\u00e7ou at\u00e9 concluir os estudos. Acabou abrindo as portas para outros jovens seguirem o mesmo caminho. No meio do ano passado, formou-se em gastronomia no Senac. Concluiu o curso de dois anos em dois anos e meio, com a ajuda de uma tutora, fazendo provas orais e com conte\u00fado adaptado \u00e0 sua capacidade de compreens\u00e3o. \u201cFoi mais dif\u00edcil do que imagin\u00e1vamos\u201d, diz a m\u00e3e.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6706\" class=\"thumbnail wp-caption alignleft\" style=\"width: 319px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6706\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Jo\u00e3o-Bertholini-e-Marco-Aur\u00e9liooo.jpg\" alt=\"(Foto: Jo\u00e3o Bertholini e Marco Aur\u00e9lio)\" width=\"309\" height=\"443\" \/><figcaption class=\"caption wp-caption-text\">(Foto: Jo\u00e3o Bertholini e Marco Aur\u00e9lio)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nA bandeira da inclus\u00e3o, empunhada pelas fam\u00edlias a partir do final da d\u00e9cada de 1980, abriu espa\u00e7o para que crian\u00e7as, jovens e adultos deixassem de ficar confinados em casa. Mas foi s\u00f3 a partir de 2006, com a Conven\u00e7\u00e3o da ONU, que foi pacificado no meio jur\u00eddico o entendimento de que a matr\u00edcula em escolas comuns no Brasil se tornou obrigat\u00f3ria, e n\u00e3o apenas preferencial, conforme se costumava interpretar da Constitui\u00e7\u00e3o. \u201cA legisla\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 entre as mais modernas do mundo\u201d, diz a procuradora da Rep\u00fablica Eug\u00eania Augusta Gonzaga, autora do livro Direito das Pessoas com Defici\u00eancia \u2013 Garantia de Igualdade na Diversidade. Ela lembra que, al\u00e9m de ser compuls\u00f3rio qualquer escola acolher alunos com defici\u00eancia intelectual, o Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2015, que as particulares n\u00e3o podem cobrar taxas extras. Ainda assim, os entraves s\u00e3o grandes. \u201c\u00c9 praxe col\u00e9gios n\u00e3o recusarem a matr\u00edcula, mas dizerem: \u2018Se fosse voc\u00ea, n\u00e3o colocaria seu filho aqui. N\u00e3o estamos preparados para receb\u00ea-lo\u2019\u201d, alerta Eug\u00eania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pais de Bruno Lowenthal Kignel, de 23 anos, tamb\u00e9m desbravaram caminhos. \u201cOptamos por olhar para o mundo de possibilidades e n\u00e3o para o carimbo no rosto\u201d, lembra a m\u00e3e, a dentista Rosane Lowenthal, 50. Entre as oportunidades, Bruno encontrou\u00ad-se no esporte. Foi o primeiro a aprender a bater as perninhas na nata\u00e7\u00e3o e entrou para o time de polo aqu\u00e1tico do Clube Hebraica, em S\u00e3o Paulo. Primeiro como jogador, depois como assessor do t\u00e9cnico. \u201cComo o polo \u00e9 um jogo agressivo, ele entrava nas partidas mais f\u00e1ceis. Come\u00e7ou a assessorar o t\u00e9cnico porque ficava no banco\u201d, afirma Rosane. Bruno n\u00e3o se incomodou com a fun\u00e7\u00e3o. \u201cMeu ponto forte \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica\u201d, diz o rapaz. \u201cFui campe\u00e3o paulista e brasileiro com o treinador. Tamb\u00e9m viajei para competi\u00e7\u00f5es em Israel, Espanha e Uruguai.\u201d S\u00e3o-paulino de cora\u00e7\u00e3o, acompanha o time pela internet. Entre as biografias que leu, est\u00e3o a do t\u00e9cnico de v\u00f4lei Bernardinho, a do ex-jogador de futebol Casagrande e a do ex-tenista Gustavo Kuerten.<\/p>\n<div class=\"frase-materia componente_materia expandido\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"frase\"><strong>Meu ponto forte \u00e9 o esporte. Fui at\u00e9 campe\u00e3o brasileiro\u201d &#8211;\u00a0<\/strong><strong>Bruno Kignel, 23 anos<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inclina\u00e7\u00e3o para o esporte o levou a estudar educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica na Universidade Paulista (Unip). Deve concluir o curso, que dura quatro anos, em seis. Conta com o apoio de uma tutora e de provas adaptadas. Foi contratado pela Hebraica como estagi\u00e1rio. \u201cEle tem muitos amigos\u201d, diz Rosane. Se vive alguma situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o ou preconceito, sai dela sozinho. Na adolesc\u00eancia, come\u00e7ou a frequentar baladas onde passou a se interessar por meninas que n\u00e3o tinham s\u00edndrome de Down. \u201cBruno sempre gostou de dan\u00e7ar, de m\u00fasica. Um dia n\u00e3o quis mais sair \u00e0 noite. Mais tarde entendi que era porque as meninas n\u00e3o queriam ficar com ele\u201d. Hoje, Bruno encontra os amigos nos esquentas das baladas e volta para casa sozinho. Est\u00e1 namorando Amanda, que tamb\u00e9m tem Down.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como os pais de Bruno, os de Samanta Quadrado, 28 anos, preferiram n\u00e3o pensar nas limita\u00e7\u00f5es quando ela nasceu. \u201cFoi como se abrissem um buraco e f\u00f4ssemos at\u00e9 o fundo. Foi do\u00eddo, compara\u00e7\u00f5es eram inevit\u00e1veis\u201d, recorda a m\u00e3e, a dona de casa Denise Pac\u00edfico, de 52 anos, de S\u00e3o Paulo. \u201cMas conseguimos nos reerguer. Corremos atr\u00e1s de estimula\u00e7\u00e3o precoce, escolinha, nutricionista.\u201d A inf\u00e2ncia n\u00e3o foi f\u00e1cil. \u201cEla n\u00e3o teve amigos e brincava basicamente com adultos e familiares\u201d, diz a m\u00e3e. Com todas as dificuldades, Samanta aprendeu a ler e a fazer dan\u00e7a do ventre. Trabalhou em escrit\u00f3rio, loja e editora. No ano passado, realizou um sonho: foi modelo da campanha #DonaDessaBeleza, da Avon, que valoriza a diversidade. \u201cFiquei t\u00e3o feliz em participar!\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela teve a primeira experi\u00eancia na m\u00eddia como integrante do filme &#8220;Colegas&#8221;, que conta as aventuras de tr\u00eas jovens com Down, e se apaixonou por um deles, o judoca Breno Viola, que tamb\u00e9m tem a s\u00edndrome. No set, fez amizade com a equipe e deu um jeito de ser convidada para um jantar onde ficou cara a cara com Breno. Deram o primeiro beijo. O namoro dura quatro anos. Os planos? \u201cEsse \u00e9 um assunto s\u00e9rio\u201d, diz Samanta. \u201cEstamos pensando em casar e morar sozinhos no Rio\u201d, onde vive a fam\u00edlia do namorado. Um sonho de muitos jovens, mas que, para ela, tem sabor especial de vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Beleza: Carlos Rosa (capa mgt) \/ Produ\u00e7\u00e3o-executiva: Vandeca Zimmermann<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte: Marie Claire.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma youtuber com 173 mil inscritos em seu canal, um campe\u00e3o brasileiro de polo aqu\u00e1tico, uma modelo de uma das maiores empresas de maquiagem do mundo, um chef de cozinha formado por uma renomada faculdade do pa\u00eds. Criada com estimula\u00e7\u00e3o e incentivo, uma nova gera\u00e7\u00e3o de jovens com s\u00edndrome de Down rompe as barreiras do mercado de trabalho e derruba o maior obst\u00e1culo para seu desenvolvimento: o preconceito. Ela quer se tornar estrela de cinema e TV. 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