{"id":3969,"date":"2016-03-18T12:13:27","date_gmt":"2016-03-18T15:13:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/?p=3969"},"modified":"2016-03-18T12:14:46","modified_gmt":"2016-03-18T15:14:46","slug":"pronta-para-novas-conquistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/pronta-para-novas-conquistas\/","title":{"rendered":"Pronta para novas conquistas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Marinalva.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-3970\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Marinalva.jpg\" alt=\"Ela completou a S\u00e3o Silvestre de muletas. Virou velejadora e quer ganhar medalhas para o pa\u00eds\" width=\"486\" height=\"343\" \/><\/a>Ela completou a S\u00e3o Silvestre de muletas. Virou velejadora e quer ganhar medalhas para o pa\u00eds\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho de Marinalva de Almeida foi dif\u00edcil desde os seus primeiros passos, ainda em Santa Isabel do Iva\u00ed, no Noroeste do Paran\u00e1, onde nasceu e viveu at\u00e9 os quatro anos. \u201cA gente acordava muito cedo. \u00c0s quatro da manh\u00e3, minha m\u00e3e j\u00e1 estava preparando a marmita. O nome boia-fria \u00e9 porque a pessoa que trabalha no campo n\u00e3o tem onde esquentar o prato e come a comida fria mesmo.\u201d Separada, a m\u00e3e n\u00e3o tinha com quem deixar os filhos e levava a prole junto (Marinalva \u00e9 a ca\u00e7ula de seis filhos). Iam para a ro\u00e7a de caminh\u00e3o, com outros trabalhadores rurais, e a crian\u00e7ada suava no cultivo do algod\u00e3o, na colheita do caf\u00e9 e da cana-de-a\u00e7\u00facar. \u201cAt\u00e9 para n\u00e3o ficar ocioso, a gente trabalhava.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Marinalva tinha quatro anos, a fam\u00edlia se mudou para Campo Grande. Por um tempo, sobreviveram da venda de quibes e de coxinhas que ela e a irm\u00e3 ofereciam de porta em porta. Chegaram a retornar para o Paran\u00e1 por conta das dificuldades, mas, depois de dois anos, decidiram voltar para a capital do Mato Grosso do Sul. A m\u00e3e conseguiu um emprego de zeladora em uma empresa de constru\u00e7\u00e3o civil e a menina foi para a escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acidente aconteceu em 1992. Marinalva tinha 14 anos. \u201cO namorado da minha irm\u00e3 estava de moto e eu fiquei insistindo: deixa eu dar uma voltinha na quadra, deixa\u2026\u201d O rapaz cedeu. \u201cQuando peguei a moto, eu fui looonge\u2026 Fui quase at\u00e9 o Centro, bem distante da minha casa.\u201d Sem capacete e sem no\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito, Marinalva entrou em uma avenida movimentada, perdeu o controle do ve\u00edculo e foi atingida por um carro. \u201cMinha perna ficou esmagada. A r\u00f3tula do joelho se quebrou em cinco partes, fora as fraturas expostas na coxa e na canela.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram seis horas de cirurgia, e cinco dias com os m\u00e9dicos tentando evitar a amputa\u00e7\u00e3o. \u201cNo quinto dia, me levaram para a sala de curativos. J\u00e1 tinha ido v\u00e1rias vezes, mas aquele foi o dia fatal\u2026 Tinha dado trombose.\u201d Como ela era menor de idade, o hospital solicitou \u00e0 m\u00e3e a autoriza\u00e7\u00e3o para fazer a amputa\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e se recusou. \u201cA gente n\u00e3o conhecia nenhuma pessoa com defici\u00eancia. Como \u00e9 que a filha dela iria viver sem perna?\u201d Foi preciso que a irm\u00e3 autorizasse a cirurgia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim, \u00e9 tranquilo falar sobre o acidente porque sei que fui eu a respons\u00e1vel. Foi a minha imprud\u00eancia que fez com que isso acontecesse. Gra\u00e7as a Deus, ningu\u00e9m mais se machucou.\u201d Marinalva teve alta do hospital ap\u00f3s 22 dias. O carinho dos familiares foi fundamental. \u201cN\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos estrutura financeira, mas t\u00ednhamos muita uni\u00e3o. A presen\u00e7a das pessoas mostrando que me amavam, dando suporte, foi muito importante.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Corrida de muletas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passado o baque, a adolescente se obrigou a tocar a vida com atitude. No Centro de Educa\u00e7\u00e3o Multidisciplinar ao Portador de Defici\u00eancia F\u00edsica (Cemdef), entrou em contato com pessoas que enfrentavam dificuldades maiores que as dela. \u201cEu via gente sem as duas pernas que fazia mais coisas do que eu! E pensava: \u2018p\u00f4, eu estou muito mole!\u2019\u201d Foi no Cemdef que Marinalva aprendeu a nadar e se iniciou no atletismo: arremesso de peso, lan\u00e7amento de dardo, de disco. Participava de competi\u00e7\u00f5es, mais preocupada em divertir-se do que em vencer, e tamb\u00e9m em manter a condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica que precisava para as atividades do dia a dia, incluindo o uso de muletas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o chegou a concluir o ensino m\u00e9dio: casou cedo, engravidou aos 17 anos e passou a dividir o tempo entre a casa e o trabalho como telefonista. O ritmo era puxado e o esporte perdeu espa\u00e7o. Com cerca de 20 anos, Marinalva come\u00e7ou a usar uma pr\u00f3tese. \u201cMas era de qualidade inferior, machucava muito, imagine um sapato apertando o seu p\u00e9 o dia inteiro\u2026\u201d Os dias eram longos, ela acordava \u00e0s cinco da manh\u00e3 e ia dormir \u00e0s onze da noite. Mesmo assim, insistiu por quatro anos. \u201cA\u00ed, a pr\u00f3tese quebrou, eu n\u00e3o tinha como arrumar e pensei: \u2018Quer saber? Na hora em que eu tiver condi\u00e7\u00f5es de conquistar uma perna, vai ser uma pr\u00f3tese muito boa.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marinalva deu \u00e0 luz o segundo filho, e depois de uma d\u00e9cada, p\u00f4s um fim ao casamento e foi morar na casa de um irm\u00e3o em Salto (SP). Ela chegou a ter dois empregos ao mesmo tempo, um em Itu e outro em Sorocaba. Suas noites de sono duravam menos de quatro horas. Para melhorar a vida profissional, fez tr\u00eas vestibulares em quatro anos (jornalismo, administra\u00e7\u00e3o e psicologia) e foi aprovada nos tr\u00eas. Sem tempo para frequentar as aulas, desistiu dos estudos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante um curso de assistente administrativa no SENAI, conheceu Edmar Wilson, t\u00e9cnico de atletismo que tem uma paralisia no bra\u00e7o esquerdo. Edmar insistiu: por que voc\u00ea n\u00e3o corre? \u201cEu pensava: esse cara \u00e9 doido, mas ele dizia: \u2018Mari, nos Estados Unidos, muitas mulheres disputam provas de muletas!\u2019\u201d. At\u00e9 que, num domingo, ela se levantou cedo e, sem avisar (j\u00e1 tinha um novo marido e um terceiro filho), foi participar de uma corrida de 10 km em Itu. \u201cComecei a correr, fiz 3 km, ah, estou bem.\u201d Duas adolescentes reduziram o ritmo para dar apoio e ajud\u00e1-la com a garrafa d\u2019\u00e1gua. \u201cAquilo me estimulou tanto, achei t\u00e3o bonita a atitude.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marinalva completou a prova em Itu e muitas outras depois. Aprendeu a confiar em seu potencial e come\u00e7ou a colecionar participa\u00e7\u00f5es e medalhas em torneios de atletismo e provas de corrida. Em 2011, num evento no Parque do Ibirapuera, virou a recordista brasileira do salto em dist\u00e2ncia paradesportivo, com a marca de 2,47 m. No \u00faltimo dia de 2012, foi a primeira mulher a concluir a S\u00e3o Silvestre de muletas, percorrendo os 15 km da tradicional prova paulistana em 2h19. \u201cDiziam que a Brigadeiro seria terr\u00edvel, que tinha muita subida\u201d, lembra ela, sobre o aclive da Avenida Brigadeiro Lu\u00eds Ant\u00f4nio. \u201cEu poderia ter feito um tempo muito melhor se n\u00e3o tivesse me poupado tanto!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Velejadora e modelo<a href=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Marinalva_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3973\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Marinalva_2.jpg\" alt=\"Ela completou a S\u00e3o Silvestre de muletas. 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Marinalva se mudou de Sorocaba para S\u00e3o Paulo e iniciou os treinos na Represa de Guarapiranga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele ano, ela come\u00e7ou tamb\u00e9m a \u201cconquistar uma perna\u201d, como dissera. Em meados de 2013, viajou \u00e0 Calif\u00f3rnia com a expectativa de conseguir uma l\u00e2mina para pr\u00f3tese esportiva do\u00a0Loma Linda University Medical Center, hospital universit\u00e1rio da cidade. \u201cCheguei de vestido, muletas e salto alto \u2013 salto 15! O m\u00e9dico comentou: \u2018se ela consegue usar esse salto de muletas, n\u00e3o tem pr\u00f3tese que ela n\u00e3o consiga usar!\u2019\u201d Marinalva cativou a equipe m\u00e9dica de tal maneira que o hospital se mobilizou para presente\u00e1-la com duas pr\u00f3teses. De uma empresa de Sorocaba, especializada no ramo, conseguiu uma com salto alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAtleta n\u00e3o precisa estar sempre vestido de atleta. Sou vaidosa, adoro salto!\u201d Ap\u00f3s o acidente, ela temia nunca poder us\u00e1-los, mas tirou a dificuldade de letra. \u201cMesmo de muletas, ando que \u00e9 uma beleza. Pode ter paralelep\u00edpedos, escada, e l\u00e1 est\u00e1 a Mari de salto!\u201d A vaidade se uniu \u00e0 milit\u00e2ncia, e ela entrou no mundo da moda: fez fotos para um calend\u00e1rio com outras amputadas, participou de desfiles inclusivos para a Lado B, grife da fisioterapeuta Dariene Rodrigues, e embelezou a passarela com uma cole\u00e7\u00e3o do estilista Fernando Cozendey de pe\u00e7as para gente que foge dos padr\u00f5es. Chegou at\u00e9 proposta de uma ag\u00eancia de modelos da Europa \u2013 mas a\u00ed ela priorizou o esporte, e disse \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 2015, Marinalva vive em Niter\u00f3i, treinando na Ba\u00eda de Guanabara, que receber\u00e1 as provas de vela adaptada. Apenas o filho do meio foi com ela. Estar longe dos filhos \u00e9 dif\u00edcil, assim como a rotina de treinos, de ter\u00e7a a s\u00e1bado. Sua dupla na vela \u00e9 Bruno Landgraf, ex-goleiro do S\u00e3o Paulo que ficou tetrapl\u00e9gico em um acidente de carro. Em maio de 2015, eles enfrentaram seu primeiro grande teste juntos: ficaram em 15\u00ba lugar na classe Skud 18 em uma regata em Medemblik, na Holanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 38 anos, prestes a realizar o sonho de representar o Brasil em 2016, Marinalva ainda \u00e9 capaz de recordar o que sentiu h\u00e1 quase 25 anos, no momento em que deixou o hospital. Acomodada na cadeira de rodas, percebeu que olhava os outros de baixo para cima. \u201cQuando voc\u00ea est\u00e1 de p\u00e9, voc\u00ea est\u00e1 na altura das pessoas. Na cadeira de rodas, sendo empurrada por algu\u00e9m, lembro nitidamente de uma sensa\u00e7\u00e3o de inferioridade. O choque de ver todo mundo me olhando, os olhares de pena, de tristeza.\u201d Essa sensa\u00e7\u00e3o nunca mais se repetiu. \u201cHoje, as pessoas me olham com admira\u00e7\u00e3o. Com alegria.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte: Draft.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela completou a S\u00e3o Silvestre de muletas. Virou velejadora e quer ganhar medalhas para o pa\u00eds. O caminho de Marinalva de Almeida foi dif\u00edcil desde os seus primeiros passos, ainda em Santa Isabel do Iva\u00ed, no Noroeste do Paran\u00e1, onde nasceu e viveu at\u00e9 os quatro anos. \u201cA gente acordava muito cedo. \u00c0s quatro da manh\u00e3, minha m\u00e3e j\u00e1 estava preparando a marmita. 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