{"id":139,"date":"2014-09-29T16:26:43","date_gmt":"2014-09-29T19:26:43","guid":{"rendered":"http:\/\/cerebro\/cvirio\/www\/site\/?p=139"},"modified":"2015-12-15T11:05:53","modified_gmt":"2015-12-15T14:05:53","slug":"exemplo-03","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/exemplo-03\/","title":{"rendered":"Tetrapl\u00e9gica tem filha de parto normal"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/debora_haupt_euleitora2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-283\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/debora_haupt_euleitora2-300x203.jpg\" alt=\"debora_haupt_euleitora2\" width=\"300\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/debora_haupt_euleitora2-300x203.jpg 300w, https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/debora_haupt_euleitora2.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">A gaucha D\u00e9bora de Aranha Haupt, 32 anos, sofreu um acidente de moto com o marido quando ia para a aula de ingl\u00eas. Ele cortou o joelho, ela ficou tetrapl\u00e9gica. Com o tempo, D\u00e9bora recuperou parte dos movimentos do bra\u00e7os e decidiu que mesmo presa a uma cadeira de rodas, n\u00e3o abdicaria do sonho da maternidade. Seis anos e v\u00e1rios tratamentos depois, ela deu \u00e0 luz Manuela, que completou um ano no ultimo m\u00eas de janeiro.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Conheci o amor da minha vida dan\u00e7ando<\/strong>. Durante cinco anos, Jair e eu viajamos pelo Rio Grande do Sul participando de concursos de dan\u00e7a tradicional ga\u00facha. Tinha 17 anos quando me apaixonei por ele. Eu trabalhava muito. Em Farroupilha, durante o dia, ajudava meus pais com o neg\u00f3cio deles e, \u00e0 noite, dava aulas de espanhol em uma escola de Bento Gon\u00e7alves, cidade vizinha. Naquela \u00e9poca, ainda n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, mas era \u00f3tima professora. Comecei meio sem querer, mas logo percebi que ensinar me realizava. Quando fui convidada a lecionar espanhol em tempo integral, aceitei imediatamente. Eu tinha 26 anos e j\u00e1 estava casada com o Jair h\u00e1 tr\u00eas. Tinha certeza de que minha carreira iria decolar. De cara, me tornei professora de 11 turmas.\u00a0<strong>Dava aulas de manh\u00e3, \u00e0 tarde e \u00e0 noite todos os dias, e \u00e0s sextas-feiras, ia para a escola aprender ingl\u00eas<\/strong>. Mas essa rotina durou apenas um m\u00eas.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Jair e eu marcamos uma viagem de final de semana. Como em outras sextas-feiras, ele me daria carona at\u00e9 a escola para a aula de ingl\u00eas. De l\u00e1, sair\u00edamos para encontrar uns amigos e seguir viagem. Por isso, nossa moto estava abarrotada de mochilas e ele dirigia devagar. Perto das 5h da tarde do dia 25 de agosto de 2006, sa\u00edmos da nossa casa e pegamos a estrada para percorrer os conhecidos 20 e poucos quil\u00f4metros que separam Farroupilha, onde mor\u00e1vamos, de Bento Gon\u00e7alves, onde eu trabalhava e estudava. O dia estava lindo. Logo \u00e0 nossa frente, dois carros esperavam, um ao lado do outro, para cruzar a estrada por onde segu\u00edamos. O primeiro arrancou para atravessar a via, mas nos viu e parou a tempo.\u00a0<strong>O motorista do segundo carro fez quase o mesmo. S\u00f3 que ele n\u00e3o nos viu. E n\u00e3o parou.<\/strong><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>O ACIDENTE<\/strong><br \/>\nFui arremessada e, como um mergulhador que bate a cabe\u00e7a no fundo do lago, bati com for\u00e7a no asfalto. Meu capacete resistiu, mas sabia que algo s\u00e9rio tinha acontecido. N\u00e3o senti nada. Pior: percebia que n\u00e3o sentia nada.\u00a0<strong>Do pesco\u00e7o para baixo, meu corpo parecia estar preso num sono profundo. N\u00e3o perdi a consci\u00eancia<\/strong>. Tive medo. Vi o socorro chegar. Vi o hospital. Vi os m\u00e9dicos e senti, por fim, que estava salva. Mas n\u00e3o senti quando uma agulha alfinetou os meus p\u00e9s. Nem as minhas pernas. Nem a minha barriga. Nem os meus bra\u00e7os.\u00a0<strong>O diagn\u00f3stico era conclusivo: fiquei tetrapl\u00e9gica.<\/strong>\u00a0De t\u00e3o ciente da gravidade do meu estado, meu \u00fanico al\u00edvio era n\u00e3o correr o risco de morrer, que eu corria sem saber. Uma cirurgia deveria implantar r\u00e9plicas de tit\u00e2nio nas tr\u00eas v\u00e9rtebras que a trag\u00e9dia tirou de mim. Fui submetida \u00e0 primeira opera\u00e7\u00e3o dois dias ap\u00f3s o acidente. E a segunda ficou para a semana seguinte, a mesma em que meu pai foi diagnosticado com c\u00e2ncer.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era f\u00e1cil admitir que eu n\u00e3o podia mexer um s\u00f3 dedo. N\u00e3o era f\u00e1cil ter algu\u00e9m escovando meus dentes, me dando comida na boca. Mas nunca me entreguei. Durante os dias em que fiquei entubada, n\u00e3o conseguia falar, mas ria.\u00a0<strong>Ria porque sabia que a minha vontade de viver era t\u00e3o importante para a minha recupera\u00e7\u00e3o quanto a medicina que me salvou do acidente<\/strong>. Foram 45 dias de hospitaliza\u00e7\u00e3o: 30 na UTI e 15 no quarto. Nos primeiros dias do p\u00f3s-operat\u00f3rio, tive uma surpresa maravilhosa.O incha\u00e7o do trauma e das cirurgias come\u00e7ou a diminuir, e eu recuperei parte do movimento dos meus bra\u00e7os. At\u00e9 hoje, a minha mobilidade \u00e9 a mesma.<strong>Sensibilidade total, s\u00f3 dos ombros para cima<\/strong>. Consigo segurar uma x\u00edcara, mas n\u00e3o mexo as m\u00e3os, que ficam o tempo todo quase fechadas.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Enquanto estava sob tratamento intensivo, tive tr\u00eas pneumonias<\/strong>. Essa inflama\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria e a les\u00e3o na medula deixaram parte de um dos meus pulm\u00f5es seriamente debilitada. De acordo com os m\u00e9dicos, essa por\u00e7\u00e3o quase morta teria de ser retirada cirurgicamente. De novo, n\u00e3o me entreguei.\u00a0<strong>Com ajuda de fisioterapia, fiz meus pulm\u00f5es renascerem, voltarem ao normal sem cirurgia<\/strong>.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">A UTI se transformou na minha resid\u00eancia naquele m\u00eas de interna\u00e7\u00e3o, entre agosto e setembro de 2006. Tanto que chorei com as enfermeiras quando recebi alta para o quarto. Depois dos \u00faltimos 15 dias no hospital, iria finalmente voltar para a minha casa. Mas n\u00e3o estava pronta para voltar para o meu quarto. Havia escadas entre n\u00f3s. At\u00e9 que pud\u00e9ssemos adaptar os ambientes, o que consegui fazer gra\u00e7as a uma heran\u00e7a deixada por meu av\u00f4, voltei a morar com os meus pais. Infelizmente, o que me esperava l\u00e1 estava longe de ser um al\u00edvio.\u00a0<strong>Debilitado por causa do tratamento contra o c\u00e2ncer, meu pai, assim como eu, estava preso a uma cadeira de rodas<\/strong>. Depend\u00edamos da minha m\u00e3e e do meu marido para tudo e nenhum de n\u00f3s sabia como lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Era muito dif\u00edcil, mas tent\u00e1vamos deixar tudo mais leve, r\u00edamos juntos da nossa trag\u00e9dia.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Quatro meses depois do acidente, fui pela primeira vez a Bras\u00edlia, onde comecei um tratamento na Rede Sarah<\/strong>, que oferece reabilita\u00e7\u00e3o totalmente gratuita. L\u00e1, com instrumentos adaptados \u00e0s minhas m\u00e3os, reaprendi a escovar os dentes, a pentear meu cabelo, a comer sozinha. Nunca tinha segurado um pincel, mas at\u00e9 a pintar, eu aprendi. Com um apoio enorme do Jair \u2013 que do acidente s\u00f3 ganhou um corte no joelho \u2013, da minha fam\u00edlia, da dele e da equipe do hospital, fui encaixando a minha vida nos eixos da minha cadeira de rodas. Seis semanas depois, voltei para a minha casa. S\u00f3 n\u00e3o digo que voltei a ser a D\u00e9bora de sempre porque, no fundo, nunca deixei de ser quem eu era.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>DAN\u00c7AR E LIBERTAR<\/strong><br \/>\nClaro que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter uma mudan\u00e7a de vida como a minha sem sentir por tudo que n\u00e3o se pode mais fazer. Eu amava dan\u00e7ar. At\u00e9 que fui a uma festa de casamento e vi todo mundo feliz, dan\u00e7ando, e fiquei arrasada. Mas lembrei do que uma psic\u00f3loga do Sarah me disse. Ela me fez prometer que, na primeira vez que sentisse vontade de dan\u00e7ar, eu dan\u00e7aria. Olhei para a pista e pensei: \u201cQuer saber? Vou l\u00e1!\u201d. Foi a minha liberta\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Dancei como pude, sentada, mas dancei. E nunca mais deixei de me divertir s\u00f3 porque tinha que dan\u00e7ar sobre a cadeira<\/strong>. Seis meses depois daquela sexta-feira, eu estava de volta \u00e0s aulas ensinando espanhol. Foi nessa \u00e9poca que perdi meu pai. No fim das contas, o meu acidente e a doen\u00e7a dele nos colocaram de volta na mesma casa, e ganhamos de presente a conviv\u00eancia di\u00e1ria nos \u00faltimos meses da vida dele.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Fui professora por mais um ano e meio e, durante esse per\u00edodo, resolvi fazer faculdade. Prestei vestibular em duas universidades. Passei em ambas e optei pela que oferecia ensino \u00e0 dist\u00e2ncia.\u00a0<strong>Com as adapta\u00e7\u00f5es desenvolvidas em Bras\u00edlia, consegui usar o computador, o que tornou poss\u00edvel conquistar o meu diploma em Letras<\/strong>. Mas dar aulas j\u00e1 n\u00e3o me realizava mais. N\u00e3o conseguia escrever no quadro com a mesma agilidade nem solucionar as d\u00favidas dos alunos como fazia antes, e isso me frustrava. A ideia n\u00e3o era voltar a trabalhar s\u00f3 para me sentir \u00fatil. Meu plano era ser feliz. E fazer o meu marido feliz tamb\u00e9m.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Jair e eu fomos um casal desde muito cedo, passamos uma vida juntos, aprendendo junto<\/strong>s. A quest\u00e3o sexual sempre me preocupou. N\u00f3s tivemos que nos conhecer de novo, come\u00e7ar do zero. No Sarah, existe um programa de reeduca\u00e7\u00e3o sexual. A troca de experi\u00eancias \u00e9 muito importante. Na minha primeira reuni\u00e3o, uma das meninas comentou que a vida sexual dela tinha melhorado muito depois da les\u00e3o medular. E eu que, seis meses depois do acidente, ainda n\u00e3o tinha transado, era s\u00f3 ouvidos. Em seguida, resolvi testar a teoria. A<strong>\u00a0primeira vez foi complicada, porque nenhum de n\u00f3s sabia exatamente o que fazer. Eu n\u00e3o sabia o que ia sentir e tinha medo de n\u00e3o sentir nada, de ficar inerte. Mas foi maravilhoso<\/strong>. Vi que era poss\u00edvel sentir prazer e fazer o meu marido feliz. N\u00f3s s\u00f3 precisar\u00edamos de calma para descobrir exatamente como. A compara\u00e7\u00e3o entre as sensa\u00e7\u00f5es de antes e depois \u00e9 inevit\u00e1vel, mas \u00e9 parte de um processo de aprendizagem, como em qualquer relacionamento. Hoje, n\u00f3s dois sabemos que, por mais incr\u00edvel que pare\u00e7a, um dos lugares onde eu mais tenho sensibilidade \u00e9 justamente na nuca, no local da minha les\u00e3o.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>As pessoas acham que cadeirantes n\u00e3o t\u00eam vida sexual e esquecem que eu, por exemplo, tenho um casamento de nove anos<\/strong>. O Jair me surpreende todos os dias. Seria um horror se ele me abandonasse, mas nunca deixei de falar sobre as nossas dificuldades por medo de correr esse risco. Jamais admitiria que ele continuasse comigo por pena. Cheguei a ter medo que ele se sentisse culpado pelo acidente, mas isso n\u00e3o aconteceu. N\u00e3o temos sequelas psicol\u00f3gicas, pois n\u00e3o t\u00ednhamos como evitar o acidente. Quero que ele esteja do meu lado sempre. Existem algumas dificuldades, mas existem outras gra\u00e7as. Garanto que poucas pessoas sabem como \u00e9 fazer sexo numa cadeira de rodas. \u00c9 s\u00f3 ter criatividade. Chegaram a perguntar se a minha gravidez foi resultado de insemina\u00e7\u00e3o artificial. L\u00f3gico que n\u00e3o.\u00a0<strong>Fazer a Manu foi uma del\u00edcia!<\/strong><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Preparei-me psicologicamente durante dois anos para a gravidez.\u00a0<strong>Para uma m\u00e3e, saber que n\u00e3o poder\u00e1 atender todas as necessidades de um filho d\u00f3i muito<\/strong>. Voltei ao Sarah para buscar orienta\u00e7\u00e3o e, como acompanhamento de uma m\u00e9dica especialista em gravidez de alto risco, come\u00e7amos as tentativas para ter um beb\u00ea em dezembro de 2010.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Em abril, quando j\u00e1 est\u00e1vamos acostumados comas negativas, alguns amigos nos convidaram para fazer uma viagem a Las Vegas dali a algum tempo. Achamos uma boa ideia. Mas a minha menstrua\u00e7\u00e3o atrasou. Fiz os c\u00e1lculos e, caso estivesse gr\u00e1vida, iria para Las Vegas com uma barriga de cinco meses. Preferi esperar para ter certeza da gravidez antes de comprar as passagens. Pedi para o Jair comprar um teste de gravidez. Deu positivo. Quando contamos aos amigos que n\u00e3o viajar\u00edamos, foi uma festa. Todos sabiam o motivo. Nunca um cancelamento foi t\u00e3o comemorado como aquele.\u00a0<strong>Recebi o diploma universit\u00e1rio exibindo a minha barriga.<\/strong><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">A gravidez foi muito tranquila. Normalmente, as gestantes como eu fazem cesariana com anestesia geral.\u00a0<strong>Eu, que passei pelo horror do meu acidente sem perder um segundo de consci\u00eancia, n\u00e3o admitiria dormir no nascimento da minha filha.<\/strong>\u00a0Os m\u00e9dicos pesquisaram e conclu\u00edram que eu poderia t\u00ea-la de parto normal. Mas as dores preocupavam. N\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o sinto dor que ela deixa de existir \u2013 o fen\u00f4meno chama-se disreflexia. Quando tenho uma dor de est\u00f4mago, n\u00e3o sinto o inc\u00f4modo localizado, mas posso ter calafrios ou dor de cabe\u00e7a, por exemplo. \u00c9 esse tipo de sensa\u00e7\u00e3o que me avisa quando algo n\u00e3o est\u00e1 bem no meu corpo. Por isso, mesmo n\u00e3o tendo sensibilidade, o parto da Manu foi com analgesia. As contra\u00e7\u00f5es vieram em forma de arrepios. Deve ter sido o parto mais tranquilo de todos os tempos. A sala estava \u00e0 meia luz, uma m\u00fasica cl\u00e1ssica tocava baixinho. O engra\u00e7ado \u00e9 que era eu quem dizia para a enfermeira: \u201cFor\u00e7a, Karen, for\u00e7a!\u201d, porque quem fazia o esfor\u00e7o todo era ela, empurrando a minha barriga a cada contra\u00e7\u00e3o.<strong>\u00a0Todo mundo chorou quando a Manuela nasceu, no dia 10 de janeiro de 2012. Foi lindo.<\/strong><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Com a Manu, desde sempre, foi incr\u00edvel.<\/strong>\u00a0No in\u00edcio, vivi momentos de pavor. N\u00e3o conseguia acalmar a minha pr\u00f3pria filha. Toda m\u00e3e sente inseguran\u00e7a, mas acho que senti mais. Isso porque tinha que delegar a outras pessoas muitos cuidados. Mas sabia que seria assim. Amamentei tranquilamente, mas precisava de algu\u00e9m do meu lado o tempo todo. Chorei, tive medo e n\u00e3o posso negar que, \u00e0s vezes, fico triste pelo que n\u00e3o posso fazer por ela. Mas todo o resto que consigo fazer \u00e9 t\u00e3o bom e t\u00e3o maior\u2026 Todos os dias descubro formas de estar mais perto da minha filha. N\u00e3o troco fraldas, n\u00e3o consigo dar banho. As minhas m\u00e3os nesses momentos s\u00e3o as do Jair ou as da Vera, a bab\u00e1, mas estou sempre ao lado. Consigo dar mamadeira, brinco com ela.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>UMA MATERNIDADE ESPECIAL<\/strong><br \/>\nA Manu se acostumou a brincar comigo sem estar no meu colo. Coloco-a sobre a mesa e beijo, abra\u00e7o, aperto. A Manu j\u00e1 bate palmas com as m\u00e3ozinhas fechadas, como as minhas, que n\u00e3o consigo mais abrir. Parece que ela sabe. Se o Jair chega perto dela, estica os bra\u00e7os e pede colo, pede para sair do ber\u00e7o. Comigo, n\u00e3o. Ela pode at\u00e9 reclamar que cansou da brincadeira, mas n\u00e3o me pede o que n\u00e3o posso dar. E fica louca com a minha cadeira! \u00c9 lindo ver que a Manu escuta, reconhece o barulho do motor da cadeira e sabe quando estou chegando. Sei que o que ficou do acidente \u00e9 para o resto da minha vida. E tamb\u00e9m que, independentemente de quem seja, sempre vou precisar de algu\u00e9m ao meu lado. No meio da noite, se estiver em uma posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, vou precisar acordar o Jair e pedir: \u201cAmor, me vira?\u201d. E ele vai estar ali para me virar. Sempre fomos muito unidos, mas hoje nossa liga\u00e7\u00e3o aumentou. Quando a Manu crescer mais um pouco, vou fazer uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e voltar a trabalhar. Mas, agora,<strong>\u00a0o que eu mais quero \u00e9 ver a minha filha caminhando para mim, correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 minha cadeira, subindo nela e dan\u00e7ando com a gente<\/strong>.\u201d<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte: Revista Marie Claire.<\/strong><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gaucha D\u00e9bora de Aranha Haupt, 32 anos, sofreu um acidente de moto com o marido quando ia para a aula de ingl\u00eas. Ele cortou o joelho, ela ficou tetrapl\u00e9gica. Com o tempo, D\u00e9bora recuperou parte dos movimentos do bra\u00e7os e decidiu que mesmo presa a uma cadeira de rodas, n\u00e3o abdicaria do sonho da maternidade. Seis anos e v\u00e1rios tratamentos depois, ela deu \u00e0 luz Manuela, que completou um ano no ultimo m\u00eas de janeiro. Conheci o amor da minha vida dan\u00e7ando. 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