{"id":1051,"date":"2015-06-02T10:36:22","date_gmt":"2015-06-02T13:36:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/?p=1051"},"modified":"2015-07-02T09:22:41","modified_gmt":"2015-07-02T12:22:41","slug":"pessoas-com-deficiencia-nao-sao-detalhes-da-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/pessoas-com-deficiencia-nao-sao-detalhes-da-natureza\/","title":{"rendered":"&#8220;Pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o detalhes da natureza&#8221;"},"content":{"rendered":"<h5><a href=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Sonhos-do-dia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1059 size-medium\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Sonhos-do-dia-300x300.jpg\" alt=\"Livro Sonhos do dia\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Sonhos-do-dia-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Sonhos-do-dia-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Sonhos-do-dia.jpg 591w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/h5>\n<h5 class=\"chamada\"><em>A jornalista Claudia Werneck, da Escola de Gente, lan\u00e7a um livro infantil em nove formatos, para ampliar um direito fundamental: comunicar e ser comunicado<\/em><\/h5>\n<h5>Em 1993, a jornalista\u00a0<strong>Claudia Werneck<\/strong>\u00a0lan\u00e7ou um livro-reportagem sobre S\u00edndrome de Down e recebeu de volta 3.000 cartas de fam\u00edlias desesperadas atr\u00e1s de ajuda, algo que transformou profunda e definitivamente a percep\u00e7\u00e3o daquela mulher sobre a necessidade de se falar em\u00a0<strong>inclus\u00e3o<\/strong>. Hoje, o tema est\u00e1 em toda parte. H\u00e1 leis sobre acessibilidade, conselhos, regras, mas o pa\u00eds continua discriminando, diz ela. &#8220;<strong>Pessoas com defici\u00eancia<\/strong>\u00a0n\u00e3o s\u00e3o detalhes da natureza, mas parte intr\u00ednseca dessa natureza&#8221;, afirma, em entrevista \u00e0 \u00c9poca, diante do florido jardim de sua casa, na Barra da Tijuca, no Rio. Claudia \u00e9 fundadora da Escola de Gente, uma ONG que vem colecionando pr\u00eamios e reconhecimento internacionais ao se dedicar a transformar pol\u00edticas p\u00fablicas em pol\u00edticas p\u00fablicas inclusivas. Seu mais recente e inovador projeto \u00e9 o livro infantil\u00a0<em>Sonhos do Dia<\/em>, o primeiro do pa\u00eds publicado em nove formatos \u00a0permitindo sua leitura por todas as crian\u00e7as.<\/h5>\n<h5>Os nove formatos s\u00e3o resultado de uma combina\u00e7\u00e3o de linguagem e tecnologia. Al\u00e9m do livro impresso, h\u00e1 o exemplar em alto relevo e braile, a vers\u00e3o falada em CDs e DVDs, com e sem audiodescri\u00e7\u00e3o &#8211; necess\u00e1ria para pessoas que n\u00e3o enxergam. O livro tamb\u00e9m foi realizado em CD no formato Daisy, que permite fazer anota\u00e7\u00f5es e sublinhar trechos. Transformado em filme, a hist\u00f3ria infantil em forma de anima\u00e7\u00e3o com audiodescri\u00e7\u00e3o, legenda em portugu\u00eas, al\u00e9m da trilha sonora, atende diversas necessidades, cegos, surdos e analfabetos. O filme traduzido para libras se torna acess\u00edvel a quem n\u00e3o escuta nem l\u00ea em portugu\u00eas.<\/h5>\n<h5>O projeto inclui uma instala\u00e7\u00e3o interativa no Centro Cultural do Banco do Brasil, do Rio, que ser\u00e1 inaugurada dia 5 de junho, para que as crian\u00e7as possam experimentar &#8211; por cinco dias &#8211; as diversas formas de ler e conhecer uma hist\u00f3ria. Escritora com mais de 14 livros publicados, e 250 mil exemplares vendidos, Claudia Werneck acredita no poder dos sonhos e da comunica\u00e7\u00e3o desde que sonhou e conseguiu falar com astronautas por carta, aos 12 anos. Abaixo, cenas dessa entrevista \u00e0 \u00c9POCA.<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA &#8211; Um livro em nove formatos \u00e9 um projeto caro. Quanto tempo um sonho desse demora para virar realidade?<br \/>\nClaudia Werneck &#8211; <\/strong>Isso \u00e9 o sonho de uma vida, da minha e do meu marido que \u00e9 meu editor e o \u00fanico do pa\u00eds especializado em formatos acess\u00edveis. Estamos falando de um projeto que envolve t\u00e9cnica, paix\u00e3o, uma curiosidade enorme e muita for\u00e7a para romper barreiras. N\u00f3s pensamos em fazer\u00a0<strong>livros acess\u00edveis<\/strong>\u00a0desde 1993 e j\u00e1 estamos vislumbrando um novo formato para o pr\u00f3ximo livro: letra ampliada para crian\u00e7as com baixa vis\u00e3o. Pensamos tamb\u00e9m num livro com linguagem simples, o mais complicado de todos porque n\u00e3o se fala muito nisso no Brasil. Eu vi na Europa, sobretudo na Alemanha: livro com falas curtas para pessoas com defici\u00eancia intelectual. Por que n\u00e3o? Cada formato exige uma sensibilidade, uma intelig\u00eancia e um percep\u00e7\u00e3o espec\u00edficas. \u00c9 um projeto caro sim, n\u00e3o tem dinheiro para o folder, por exemplo. Falta dinheiro pra tudo. O que queremos \u00e9 um \u00fanico formato que atenda todas as crian\u00e7as. Uma aventura que exige pesquisa porque uma coisa \u00e9\u00a0<strong>acessibilidade<\/strong>\u00a0para adulto, outra para crian\u00e7a. O Brasil ainda n\u00e3o percebe todo o valor da crian\u00e7a e n\u00e3o estou falando de governo, empresas e m\u00eddia n\u00e3o. \u00c9 a fam\u00edlia, toda e qualquer fam\u00edlia porque o olhar adulto sobre a crian\u00e7a ainda \u00e9 muito descontextualizado, n\u00e3o leva em conta mesmo o que \u00e9 direito da crian\u00e7a. Essa discuss\u00e3o sobre maioridade penal toda errada \u00e9 levar ao extremo um problema disfar\u00e7ado no dia a dia com amor e cuidado. A pessoa cuida, ama, leva para vacinar, mas n\u00e3o reconhece o papel da crian\u00e7a.<\/h5>\n<h5><strong><a href=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Claudia-Werneck.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1053\" src=\"http:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Claudia-Werneck-223x300.png\" alt=\"Claudia Werneck\" width=\"223\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Claudia-Werneck-223x300.png 223w, https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Claudia-Werneck.png 540w\" sizes=\"auto, (max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/><\/a>\u00c9POCA \u2013 A senhora est\u00e1 falando de uma falsa comunica\u00e7\u00e3o entre adultos e crian\u00e7as?<br \/>\nClaudia \u2013<\/strong> S\u00f3 h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o quando as pessoas que se comunicam se percebem como tendo o mesmo valor, e isso n\u00e3o acontece quando algu\u00e9m com defici\u00eancia conversa com algu\u00e9m sem defici\u00eancia, por exemplo. \u00c9 como se a pessoa com defici\u00eancia fosse um ser humano de menor valor, porque lhe faltaria algo, estaria eternamente em desvantagem. O mesmo acontece entre adultos e crian\u00e7as. A crian\u00e7a pode receber carinho de sua fam\u00edlia e, ao mesmo tempo, ser desrespeitada porque as pessoas a sua volta j\u00e1 cresceram e ela est\u00e1 em fase de desenvolvimento, e isso se reflete na comunica\u00e7\u00e3o intergeracional. A crian\u00e7a precisa, sim, da prote\u00e7\u00e3o integral do adulto, mas traz em si um valor humano inteiro, pronto, inquestion\u00e1vel.\u00a0 Para algumas pessoas \u00e9 mais f\u00e1cil desrespeitar uma crian\u00e7a do que um adulto. Nunca parei para estudar muito isso, mas quer um exemplo? J\u00e1 reparou como as pessoas se sentem livres para tocar um beb\u00ea quando acabam de conhec\u00ea-lo? Voc\u00ea n\u00e3o faz isso com um adulto. Muitos argumentam que \u00e9 carinho. T\u00e1 bem, mas voc\u00ea n\u00e3o tem afeto com aquela crian\u00e7a que muitas vezes acabou de conhecer para ficar tocando no corpo dela, mesmo que seja para fazer carinho. Tem homem que\u00a0 acha um absurdo bater em mulher, mas bate na filha, que \u00e9 uma mulher pequena&#8230;&#8230;n\u00e3o consigo entender isso. Concorda que \u00e9 estranho?\u00a0 Por isso, refletir sobre os Direitos da Crian\u00e7a na perspectiva da acessibilidade e do direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e9 um debate novo.\u00a0 \u00c9 um tema pouco conhecido, um arcabou\u00e7o te\u00f3rico que sequer est\u00e1 sistematizado no universo dos Direitos das Crian\u00e7as. Nesse livro, eu pe\u00e7o que o leitor ajude a espalhar a not\u00edcia de que ele existe tamb\u00e9m para quem n\u00e3o v\u00ea. \u00c9 uma tentativa de responsabilizar uma crian\u00e7a pela outra. Se eu gero na crian\u00e7a que enxerga o compromisso de avisar \u00e0 crian\u00e7a que n\u00e3o enxerga que o conte\u00fado do livro est\u00e1 em outras m\u00eddias, eu crio um v\u00ednculo de prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua. A acessibilidade n\u00e3o \u00e9 apenas um instrumento para a garantia de direitos, \u00e9 um direito por si s\u00f3.\u00a0 Um direito relacionado com o direito \u00e0 vida porque s\u00f3 est\u00e1 vivo no planeta hoje quem tem algum n\u00edvel de acessibilidade. Isolado, o ser humano morre em v\u00e1rios sentidos.<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA \u2013 Propostas inclusivas s\u00e3o sempre bandeiras de pessoas idealistas e teimosas o suficiente para lev\u00e1-las adiante, o que \u00e9 uma carga dif\u00edcil de carregar. Al\u00e9m do mais, s\u00e3o propostas que nunca despertam interesse comercial. Como a senhora supera essas dificuldades?<br \/>\nClaudia \u2013<\/strong> \u00c9 muito dif\u00edcil mesmo. Muito raro ter interesse das livrarias ou das editoras num livro em sete formatos acess\u00edveis. \u00c9 muito caro, tanto que esse livro, quando foi editado pela primeira vez em 2001, teve apoio via Lei Rouanet, com patroc\u00ednio da White Martins. Essa vers\u00e3o ampliada tem patroc\u00ednio de novo da White e do Crian\u00e7a Esperan\u00e7a, porque os outros parceiros n\u00e3o entram com dinheiro. Esse \u00e9 um trabalho que precisa de parcerias institucionais fortes, ou n\u00e3o anda.\u00a0 Eu procuro juntar todos em torno disso, mas n\u00e3o d\u00e1 para fazer sem incentivo. S\u00f3 que a gente faz de qualquer jeito (ri).<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA \u2013 O alto custo n\u00e3o torna um projeto de acessibilidade inacess\u00edvel?<br \/>\nClaudia \u2013<\/strong> Te pergunto &#8216;quanto custa n\u00e3o discriminar?&#8217; Se eu fa\u00e7o um livro s\u00f3 impresso em tinta, eu sei exatamente o pre\u00e7o da\u00a0<strong>discrimina\u00e7\u00e3o<\/strong>. O X a mais do livro que n\u00e3o discrimina n\u00e3o \u00e9 o &#8220;a mais&#8221;, mas o certo porque estamos no mundo do &#8220;X a menos&#8221;. Quanto custa discriminar uma pessoa surda num v\u00eddeo sobre doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis? Custa o pre\u00e7o de um v\u00eddeo executado sem um tradutor para libras. O mesmo vale para um panfleto de interesse maior que n\u00e3o seja elaborado em braile. Sou radical nesse ponto. Um livro impresso \u00e9 um livro que discrimina. O desafio \u00e9 calcular quanto custa n\u00e3o discriminar. Voc\u00ea pensa que se eu entrasse com esse projeto de um livro em sete formatos num edital eu ganharia? Nunca. As pessoas fogem, n\u00e3o entendem a utilidade disso. A minha organiza\u00e7\u00e3o, Escola de Gente, lida com ineditismo, gera emprego, em todo o Brasil, mas precisa de parceiros que acreditem nessa for\u00e7a, algo especial e muito dif\u00edcil. Em meu livro &#8220;Ningu\u00e9m mais vai ser bonzinho&#8221;, de 1997, eu falo que na sociedade inclusiva \u2013 uma proposta da ONU de 1990 (Toda pessoa tem direito de contribuir com seu talento para o bem comum) &#8211; seremos todos c\u00famplices, por mais diferentes que as pessoas pare\u00e7am.\u00a0 Por isso estar no lugar do bonzinho me chateia. Esse projeto nasceu do meu trabalho jornal\u00edstico, em cima de um tema de interesse p\u00fablico, que trata do futuro do pa\u00eds, t\u00e3o importante quanto qualquer esc\u00e2ndalo ou not\u00edcia sobre o Or\u00e7amento. O esfor\u00e7o \u00e9 muito grande mas h\u00e1 muita dificuldade para incluir esse tema no debate corrente por isso sigo testando estrat\u00e9gias. A Tat\u00e1 (Tat\u00e1 Werneck, atriz), minha filha, criou um grupo de teatro na escola em 2003. Eu e meu marido damos oficina para\u00a0 forma\u00e7\u00e3o de m\u00eddias acess\u00edveis nas favelas, inclusive com no\u00e7\u00f5es de audiodescri\u00e7\u00e3o para quem n\u00e3o enxerga. Tento tudo que posso e sempre focada na juventude porque os jovens s\u00e3o os melhores agentes de transforma\u00e7\u00e3o\u00a0 embora meu p\u00fablico seja a crian\u00e7a. Os jovens s\u00e3o pediatras que d\u00e3o plant\u00e3o, pedagogos rec\u00e9m-formados, ter\u00e3o filhos e saber\u00e3o educar melhor.<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA \u2013 O que a senhora espera desse livro em nove formatos?<br \/>\nClaudia \u2013<\/strong> Este livro avan\u00e7a no debate. Claro que a tend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 inviabilizar o livro. Quero que todos juntos pensem solu\u00e7\u00f5es. Existem formatos totalmente desconhecidos do p\u00fablico como o formato DAISY. Um folder no formato DAISY num CD n\u00e3o \u00e9 caro. O problema \u00e9 que, ao pensar inclus\u00e3o, voc\u00ea altera os tempos. Se tem uma foto, \u00e9 preciso descrev\u00ea-la. O tempo da comunica\u00e7\u00e3o da acessibilidade \u00e9 incompat\u00edvel com os tempos atuais. Somos cada vez mais impulsionados para um tempo em que os mais r\u00e1pidos s\u00e3o melhores. Quero mostrar que todas as formas de se expressar s\u00e3o leg\u00edtimas. No entanto, n\u00e3o existe um encontro para esse interc\u00e2mbio no Brasil. Acessibilidade n\u00e3o \u00e9 para as pessoas com defici\u00eancia acessarem o saber dos n\u00e3o-deficientes. \u00c9 uma troca. As reflex\u00f5es sobre sustentabilidade e sa\u00eddas para o planeta n\u00e3o dar\u00e3o certo porque ignoram as perspectivas de uma popula\u00e7\u00e3o enorme que tem um saber que n\u00e3o entra na busca dessas novas solu\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m est\u00e1 discutindo, por exemplo, num sistema de preven\u00e7\u00e3o de desastres com avisos sonoros, como educar a popula\u00e7\u00e3o para avisar uma pessoa surda que o barulho est\u00e1 no ar. Se n\u00e3o fizerem isso, n\u00e3o adianta. Acessibilidade envolve tamb\u00e9m mudan\u00e7a de atitude e expans\u00e3o de consci\u00eancia, \u00e9 o principal instrumento de garantia de Direitos Humanos. N\u00e3o \u00e9 um favor aos deficientes. A sociedade inclusiva \u00e9 revolucion\u00e1ria porque n\u00e3o procura botar para dentro quem est\u00e1 fora, ela reconhece todos como seres de igual valor. A sociedade hoje se pauta por discrimina\u00e7\u00e3o em todos os pontos de vista e n\u00e3o se d\u00e1 conta disso.<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA \u2013 Voltando ao tema do seu livro infantil, a senhora sonha mais acordada ou dormindo?<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>Claudia \u2013<\/strong> Bem mais acordada (ri). Esse livro \u00e9 a minha hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria que mais me mobilizou na vida foi a ida dos astronautas para a lua. Eu tinha 12 anos. Meu pai, historiador, e minha m\u00e3e, ge\u00f3grafa, ambos professores, acordaram a mim e a meu irm\u00e3o de madrugada para ver a aterrissagem. E eu j\u00e1 estava toda agitada com a expectativa daquela miss\u00e3o lunar. Morava no Graja\u00fa. Depois, fiquei t\u00e3o emocionada, que disse para o meu pai que queria enviar uma carta para os astronautas para contar a minha emo\u00e7\u00e3o. O que achei bonito no meu pai foi ele me estimular. Escrevi, minha tia traduziu e enviamos a carta. Eles me responderam com foto e tudo. Eu me senti pertencendo ao mundo, uma menina que se comunicava com os homens mais importantes do planeta!\u00a0 Nasceu ali a for\u00e7a que tenho e com o entendimento que meus pais tiveram do meu desejo de comunicar. Foi uma das coisas mais importantes que meus pais fizeram por mim. At\u00e9 hoje quando falo dos meus sonhos pouca gente acredita em mim, estou at\u00e9 habituada. Todo sonho d\u00e1 trabalho e meu sonho d\u00e1 pregui\u00e7a nas pessoas (ri). Mas eu sonho, arranjo dinheiro pro sonho, participo do sonho, fa\u00e7o oficinas do sonho, presto contas do sonho e acabo com minha sa\u00fade. Invisto muita energia nisso. Fico contente porque vejo que meus filhos tamb\u00e9m sonham muito acordados, s\u00e3o corajosos e perseverantes. Crian\u00e7as precisam sonhar acordadas e n\u00e3o sei por que adulto n\u00e3o gosta de ver crian\u00e7a com aquele olhar parado, manda logo escovar os dentes, fazer alguma coisa. \u00c9 no sonho que ela exercita a capacidade de mudar o que ela quer.<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA \u2013 E como a senhora alimenta seus sonhos e n\u00e3o os deixa morrer?<br \/>\nClaudia \u2013<\/strong> Tenho cuidado para que meus sonhos n\u00e3o sejam uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia porque fica muito pesado, mas a pessoa que mais alimenta meus sonhos \u00e9 meu marido. Estou com ele desde os 18 anos, casados desde 1979, um cara que j\u00e1 fez de tudo, muito perseverante. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m \u00e9 um est\u00edmulo, e meus filhos, pela forma como eu vejo eles indo atr\u00e1s dos sonhos. Tudo isso \u00e9 meu modo de existir.<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA \u2013 A senhora j\u00e1 tem mais de 20 anos de campanha pela acessibilidade. Hoje em dia ficou mais f\u00e1cil?<br \/>\nClaudia \u2013<\/strong> N\u00e3o, naquele tempo n\u00e3o tinha pol\u00edtica inclusiva nem lei e a gente brigava por isso. Hoje tem lei e pol\u00edtica inclusiva mas a luta \u00e9 para implement\u00e1-las. As pessoas avan\u00e7aram pouco. Hoje brigo para que a lei n\u00e3o seja modificada porque tem sempre gente querendo derrubar as leis, para que educa\u00e7\u00e3o inclusiva seja opcional. Eu falo hoje o que eu falava h\u00e1 20 anos e ainda hoje n\u00e3o sou entendida totalmente, o que me impede de entrar em temas novos. Meu sonho \u00e9 maior do que a Escola de Gente. Acessibilidade \u00e9 liberdade e as pessoas se sentem profundamente amea\u00e7adas ao enxergar o mundo como ele \u00e9. No in\u00edcio a luta era uma, hoje \u00e9 para n\u00e3o regredir o que requer um esfor\u00e7o maior porque a sociedade evoluiu e as pessoas aprenderam a disfar\u00e7ar seus modos de discriminar. Como o tema est\u00e1 na m\u00eddia, acham que estamos evoluindo como se fosse a prova de que h\u00e1 um fluxo de conhecimento suficiente circulando. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. As pessoas hoje discriminam com mais delicadeza. S\u00f3 isso. O que eu estou propondo \u00e9 que se fa\u00e7a livros, escolas e hospitais para seres que existem e n\u00e3o para seres que as pessoas gostariam que existissem, idealizados. Minha proposta \u00e9 sairmos desse del\u00edrio coletivo e desenvolvermos a verdadeira \u00e9tica do indiv\u00edduo com sua esp\u00e9cie e entender que pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o detalhes da natureza, mas parte intr\u00ednseca dela. N\u00e3o podem continuar sendo exclu\u00eddas dos processos de participa\u00e7\u00e3o porque todos perdemos com isso.<\/h5>\n<h5><strong>\u00c9POCA \u2013 A senhora se sentiu discriminada por abra\u00e7ar uma causa sem ser deficiente nem ter filhos deficientes?<br \/>\nClaudia \u2013<\/strong> Totalmente. A primeira resist\u00eancia veio da pr\u00f3pria classe jornal\u00edstica que dizia que pena que voc\u00ea abandonou o Jornalismo. Quer dizer que pode ter jornalista de esporte, de gastronomia mas n\u00e3o de inclus\u00e3o? E isso foi do\u00eddo porque a minha sensa\u00e7\u00e3o era \u201cagora que eu estou entendendo o que \u00e9 ser jornalista\u201d, agora que eu estou testando os limites da minha profiss\u00e3o, dizem que n\u00e3o sou mais jornalista? Jornalista tamb\u00e9m \u00e9 agente da hist\u00f3ria. Em 1993, quando recebi 3.000 cartas por causa do meu primeiro livro, sobre S\u00edndrome de Down, envolvendo minha fam\u00edlia toda. A primeira dor veio da minha classe. Depois virei objeto estranho para todas as classes. Para os educadores, eu era s\u00f3 uma jornalista. Para os m\u00e9dicos, eu tamb\u00e9m era s\u00f3 uma jornalista. Eu vivi a exclus\u00e3o de uma causa e hoje em dia a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 porque eu n\u00e3o sou deficiente. Muitos deficientes gostam do lema &#8220;Nada sobre n\u00f3s sem n\u00f3s&#8221;, mas eu posso ser a ponte e eu tenho o direito de me interessar por qualquer causa. As pessoas tendem a achar que a pessoa s\u00f3 tem credibilidade para lutar por uma causa se ela for a causa. Acabou que hoje eu tenho um sobrinho com defici\u00eancia, falo disso com naturalidade, mas eu n\u00e3o entrei nessa causa por causa do meu sobrinho, ele \u00e9 apenas mais uma prova de que a defici\u00eancia faz parte da humanidade e eu quis contar isso para todo mundo, era um tema desconhecido e mudou toda a nossa vida. A proposta de inclus\u00e3o vem sendo sempre adiada como se fosse algo voltado s\u00f3 para aquela fam\u00edlia azarada. Formar crian\u00e7as com a mentalidade da acessibilidade \u00e9 dar vez a um novo modelo de sociedade com pessoas mais livres e mais respons\u00e1veis.<\/h5>\n<h5><strong>Por:\u00a0ISABEL CLEMENTE<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>Fonte: \u00c9poca<\/strong><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1993, a jornalista Claudia Werneck lan\u00e7ou um livro-reportagem sobre S\u00edndrome de Down e recebeu de volta 3.000 cartas de fam\u00edlias desesperadas atr\u00e1s de ajuda, algo que transformou profunda e definitivamente a percep\u00e7\u00e3o daquela mulher sobre a necessidade de se falar em inclus\u00e3o. Hoje, o tema est\u00e1 em toda parte. H\u00e1 leis sobre acessibilidade, conselhos, regras, mas o pa\u00eds continua discriminando, diz ela. &#8220;Pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o detalhes da natureza&#8230;Continua<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1062,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[23,117,118,24,25,119],"class_list":["post-1051","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","tag-acessibilidade","tag-educacao","tag-esporte","tag-noticias-2","tag-o-que-acontece-no-cvi-rio","tag-tecnologia-assistiva"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.9 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>&quot;Pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o detalhes da natureza&quot; - CVI-Rio<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"&quot;Pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o detalhes da natureza&quot;\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.cvi-rio.org.br\/site\/pessoas-com-deficiencia-nao-sao-detalhes-da-natureza\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"&quot;Pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o detalhes da natureza&quot; - 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