Pela primeira vez, tetraplégico pilota carro de corrida usando comandos cerebrais

Em feito inédito no mundo, o tetraplégico Rodrigo Mendes pilota um carro de corrida num autódromo de São Paulo – Ramon

Campanha da TV Globo mostra feito de Rodrigo Mendes, paralisado após levar um tiro

RIO — Rodrigo Mendes passou os últimos 27 anos acreditando que nunca mais iria dirigir um carro. Quanto mais um carro de corrida. Aos 18 anos de idade, ele ficou tetraplégico — sem movimentos do pescoço para baixo — após levar um tiro durante um assalto. Desde então, tornou-se um nome importante na luta pelos direitos de inclusão daqueles que têm alguma deficiência, fundou o Instituto Rodrigo Mendes e, agora, virou a primeira pessoa com tetraplegia a pilotar um carro de corrida usando comandos cerebrais. O veículo foi especialmente projetado pela equipe de tecnologia da TV Globo, como parte da campanha “Tudo começa pelo Respeito”, lançada pela emissora em 2016, em parceria com Unesco, Unicef, Unaids e ONU Mulheres.

O vídeo da campanha entrou no ar na televisão no último domingo, dia 26, aproveitando o fato de ser esta a semana de estreia da temporada de Fórmula 1. As imagens foram gravadas no autódromo Velo Cittá, em Mogi Guaçu, interior de São Paulo, e mostram a equipe colocando em Rodrigo um capacete no qual foram instalados sensores conectados ao motor do veículo. Por meio de um software, o mapeamento dos impulsos elétricos produzidos pelas ondas cerebrais do piloto foi enviado para um computador de bordo conectado ao sistema de direção.

Além dos sensores cerebrais, o carro foi equipado com um sistema de controle totalmente computadorizado de onde se aciona direção, acelerador, freio, embreagem e mudança de marcha. Uma câmera frontal detectou o traçado da pista — uma inovação que vem sendo apresentada nas feiras mundiais de tecnologia. Para segurança de Rodrigo, o veículo contou com um receptor remoto e uma comunicação direta com as equipes no box.

A tecnologia garantiu que a aceleração do carro e os movimentos de curva para direita e esquerda fossem conduzidos pelo pensamento de Rodrigo. Na prática, o sistema detecta os padrões de pensamento e, quando o pensamento treinado é repetido, o computador de bordo reage aos acionamentos necessários no sistema de direção.

— Fiquei de queixo caído quando vi o carro — disse Rodrigo. — Imaginei que seria algo legal, mas nunca pensei que o resultado seria assim tão parecido com um carro profissional de corrida. Foi algo incrível pra mim.

Rodrigo Mendes perdeu os movimentos do pescoço para baixo por causa de um tiro durante um assalto aos 18 anos – Ramon

Ele acredita que a tecnologia ajuda a eliminar barreiras para pessoas com deficiência, mas ressalta também que é preciso eliminar supostas barreiras no dia a dia. Todas as pessoas têm alguma deficiência, sublinha ele, e isso não deve limitá-las.

— O mais difícil de ser superado não é a limitação física. É a limitação do preconceito, a limitação da indiferença, a limitação imposta pela sociedade. As pessoas não são iguais. E não devem ser. O respeito às diferenças é imprescindível para que os direitos sejam iguais para todos. Além do respeito, precisamos mudar nossa atitude em busca da eliminação das barreiras. Em outras palavras, o desafio de se construir uma sociedade inclusiva é meu, é seu, é de todos — defende Rodrigo.

Diretor de Tecnologia da TV Globo, Raymundo Barros afirma que incentivar o uso da inteligência artificial em prol da acessibilidade é uma das metas da campanha.

— Ficamos muito orgulhosos pelo pioneirismo em desenvolver este projeto, com uma equipe multidisciplinar, colocando a tecnologia a serviço da acessibilidade. Mais do que encantar as pessoas, sabemos do nosso poder de mobilização, e a inovação é uma das ferramentas para isso. Muito tem se falado em inteligência artificial e esta campanha mostra como a tecnologia tem um papel social importante — destaca Barros.

O objetivo final é a mobilização da sociedade para o fortalecimento de uma cultura que não apenas tolere, mas respeite e discuta amplamente os direitos de públicos vulneráveis à discriminação e ao preconceito.

— Ao criar um ambiente em que uma pessoa com deficiência é capaz de conduzir um carro de corrida por comandos cerebrais, queremos mostrar que sua característica não deve ser apenas respeitada, e sim, encarada como um desafio para a melhoria de toda a sociedade — reforça Sergio Valente, diretor de Comunicação da TV Globo.

Assista ao vídeo: http://redeglobo.globo.com/campanhas/videos/t/campanhas/v/movido-a-respeito-em-campanha-da-globo-piloto-controla-carro-de-f1-por-comandos-cerebrai/5753527/

Fonte: O Globo.