bolo-de-aniversario-10-1-titleO CVI-Rio completa 29 anos de fundação. Como falar destes 29 anos de história, sem falar em sonhos e projetos fortemente amparados por uma ideologia que sustentou êxitos e fracassos, acertos e equívocos, avanços e recuos? Certamente houve muito empenho e dedicação, além de trabalho, trabalho e mais trabalho pela satisfação e o prazer para o desafio da inovação e do pioneirismo de suas metas.

Até então, estávamos vivendo os avanços alcançados pelo movimento político das pessoas com deficiência, iniciado na década de 70, e formando as principais lideranças para reivindicarem a defesa de seus direitos. O movimento adquiriu forças e expandiu-se, revelando a força de um grupo que se quis representar como protagonista daquela ação. E isto em plena época do regime de exceção que o país vivia.

Neste momento, mais precisamente no ano de 1988, surge a idéia de trazer para o Brasil a representação do movimento de vida independente já implantado nos E.U.A, resultando na criação do CVI-Rio.

Os princípios que regem o movimento de vida independente são basicamente os seguintes:

  • Ênfase na pessoa antes da deficiência;
  • Fortalecimento da pessoa com deficiência para uma vida independente e autônoma;
  • Protagonismo da pessoa com deficiência;
  • Ênfase na inclusão social e reconhecimento da diversidade humana.

Tais princípios, que se aplicam aos serviços, cursos, treinamentos, projetos e ações do CVI-Rio, servem como elemento catalisador para a transformação de concepções que carregam o estígma do preconceito e da discriminação sobre a diversidade humana, fazendo parte de nossa cultura histórica. É quando então a diversidade, em lugar de seu sentido ligado ao que é original e único, adquire a representação pejorativa do que é feio, vulgar, anormal, incapaz e improdutivo, repercutindo na invisibilidade (exclusão) social de tais segmentos.

E nesse universo, penso que estão incluídas, não só as pessoas com deficiência, como as negras, pobres, moradoras de comunidades, com transtornos mentais, de etnias e crenças religiosas diversas, além das que apresentam questões de gênero. A meu ver, estas diferenças se somam e são transversais umas às outras, de tal modo que podemos constatar que uma pessoa com deficiência pode ser negra, e/ou pobre, além de mulher e com sérios transtornos mentais. Essa invisibilidade é totalmente construída para a retirada de um poder que lhes cabe como pessoas, para constituirem-se como uma população minoritária, como é considerada, o que não é verdade.

Apesar de um quadro político atual que revela um mundo fragmentado e com tendência a comportamentos reacionários, vejo também um dinamismo que é próprio dos seres humanos e até dos organismos vivos de quaisquer espécies, movimento que é elemento propulsor da vida. O mesmo se dá no organismo social que, ao passo que é capaz de direcionar-se para uma tendência mais progressista e libertadora, pode reduzir-se a outro momento de recuo e fechamento. O país está vivendo este momento, que ao mesmo tempo, está provocando uma reação a este imobilismo.

Por este motivo, assistimos a algumas mudanças se introduzindo em nosso cotidiano, marcando transformações que levam a idéia de uma visão mais inclusiva para nossa sociedade.

Esta mudança não se dá ao acaso. Basicamente, é fruto de um forte movimento social, com a tônica de ser propagado e mantido basicamente em função do protagonismo, no caso, das pessoas com deficiência, que ouso dizer, foi acompanhado pela luta por direitos humanos de outros grupos sociais, a que denominaria de grupos com vulnerabilidade social.

O CVI-Rio contribuiu muito na expansão de idéias sobre o protagonismo das pessoas com deficiência, sempre estendendo este conceito transformador para uma visão mais inclusiva da sociedade como um todo.

Como isto se dá em ondas que se expandem para influir num movimento mais amplo, podemos observar, a meu ver, uma sociedade que vai se tornando mais inclusiva.

E se formos observar a força dos grupos ditos vulneráveis que defendem suas plataformas de luta, eu poderia dizer que há uma convergência do movimento em torno de princípios básicos: empoderamento pessoal, protagonismo e inclusão social. Vejo isto acontecendo em vários aspectos de nosso contidiano, com festivais, eventos, filmes e literatura cada vez mais dedicados ao tema, e tudo isto trazendo um movimento de transformação social.

Na comemoração dos 29 anos do CVI-Rio, quero deixar um desafio que se faz em torno de, cada vez mais, estes movimentos específicos, possam caminhar de forma convergente, de tal modo que a questão da deficiência, no caso, possa ser tratada em sua transversalidade com outros grupos sociais.

Essa é nossa proposta, reconhecendo que, de nossos múltiplos projetos e ações, nosso principal orgulho é termos fortalecido pessoas dentro de suas vulnerabilidades, para exercerem seu protagonismo para uma vida cidadã.

Por Lilia Martins




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