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INTERVENÇÃO INTERDISCIPLINAR AO PACIENTE COM LESÃO MEDULAR

por Sheila Salgado

Para falar sobre lesão medular deveríamos começar pela reflexão sobre o papel do sistema nervoso na nossa vida e o papel da medula para o sistema nervoso. Poderíamos ampliar a reflexão e aplicar o mesmo princípio sobre qual o nosso papel na equipe? O significa a lesão medular para cada um de nós? O que eu aprendo com a lesão do outro? O que esta lesão mobiliza em mim e qual o meu papel nesta equipe, neste hospital, nesta pequena teia? Falando em teia poríamos ampliar um pouco mais a abrangência da lente grande angular e pensar na Teia da Vida. Qual é o meu papel como fio nesta teia? Como interfiro neste sistema e como sou influenciado por ele? O que penso desta malha energética que hoje a ciência, a física quântica já prova que estamos todos conectados, influenciando e sendo influenciado, com consciência ou não….

Tenho muito a agradecer estes 32 anos de trabalho nesta área. Tive muitas oportunidades, grandes encontros e grandes desencontros com os mais diversos profissionais e pacientes, que me proporcionaram deparar com muitas visões de mundo, algumas tão vastas e outras tão estreitas e míopes.

Sempre tenho tantas perguntas, novas perguntas, e foram elas que me fizeram mergulhar não nas águas rasas de um rio, mas nas águas profundas da minha história pessoal, que em busca de tantas respostas descobri que cada paciente refletia como espelho translúcido imagens das minhas próprias sombras, dos meus medos, das minhas paralisias, que eu mesma não sabia existir.

Meu coração confiante sempre acreditou que tudo estava em seu lugar, e mesmo sem entender o porquê, eu sempre senti que na vida não existe vítima, somos todos sujeitos e não objetos de nosso próprio destino. Como energia que somos não existe certo ou errado e que cada um de nós constrói conscientemente ou inconscientemente a própria realidade para aprender, ensinar ou desenvolver-se. Aprendi também que o mais importante não é onde pretendemos chegar e sim fazer a jornada, sentindo o sentido desta breve caminhada. Mas eu queria mudar esta realidade, eu queria vencer a violência e a desigualdade construir um pouco de paz. O que eu não sabia é que eu refletia fora esta triste realidade que em mim existia….Lentamente a minha capacidade e maturidade se desenvolvia enquanto eu me descobria. Muitas vezes me deparei com minhas partes sombrias, minha rigidez, minhas paralisias, meus desconexos pedaços… Falta de sensibilidade nem se fala, além do traço sádico de terapeuta, que muitas vezes me surpreendia. Verdades, a cada dia se rendiam e ainda se rendem e um mundo de possibilidades ainda se abre a cada novo momento. Limitações eram inúmeras, mas com cada paciente lentamente descobria, focar na força, na luz, no potencial, na saúde e só então encontrar razão para encarar a falta, as perguntas sem respostas, a dor e os gritos da silenciosa insensibilidade. Descobri a Leitura Corporal e muitas outras técnicas incríveis, umas mais estreitas, outras tão vastas que me encantavam e assustavam.

Conheci de muito perto a capacidade de adaptação e de reconstrução do ser humano. A capacidade de juntar os cacos e voltar a viver como antes, apesar de tudo. Conviver com o novo, criar o diferente e a lidar com as reações imprevisíveis nas relações.

Aprendi a valorizar as raízes, todas!!! As sociais, culturais, familiares e a física: o pé no chão. A bagagem de cada um, de todos os profissionais e o valor de uma taça vazia, sedenta por um pouco mais de vida. Finalmente percebi o Sagrado em cada encontro, que arrebatava o medo do desconhecido e me convidava a abrir as portas dos meus próprios porões e lá juntar meus pedaços perdidos na linha do tempo. Descobri que estimulava o potencial do outro para sentir o meu próprio. Enquanto facilitava o ir e vir, mesmo que sobre as rodas, descobria meus próprios medos de dar os meus passos e meus tímidos desejos empoeirados e esquecidos por mim. Hoje já posso ousar dizer o que sinto, porque aprendi com todos vcs, pacientes, alunos, amigos e colegas e mestres, que já posso dar os primeiros passos na direção de quem sou, apesar dos riscos, dos olhares, dos julgamentos, independente da crítica.

Agradeço a Lesão medular, que de tão medonha e abrangente me obrigou a pular os muros da especialização e me fez conhecer a grandeza da interdisciplinaridade, da transdiciplinaridade e da diversidade. A lesão medular me fez ouvir meu descompassado coração e brincar de novo com muita emoção de dar meus próprios passos nesta nova direção.

Aprendi como terapeuta que precisamos restaurar e assumir enfim a condição de seres eretos, como diria Roberto Crema, e que isto não significa apenas ficar de pé novamente e sim, ousar o desafio da inteireza, conspirar por um homem integral, interconectar e valorizar os 2 hemisférios cerebrais e reivindicar atrevidamente nossa condição de canal, seres destinados a interligar o céu e a terra.

Para finalizar gostaria de citar Patrícia P. Bernardo.

 “…A VIDA FAZ SENTIDO PRÁ QUEM SE RECONHECE NAS TRAMAS DO PRÓPRIO DESTINO E COM SEUS FIOS TECE HORIZONTES…”  Patrícia P. Bernardo

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