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A vaidade de quem não vê
Cristina Vieira
Àqueles de percepção limitada, as cores na cegueira não existem.
De fato, os cegos enxergam um vazio neutro, meio cinza, que não é preto, nem branco. Alguns percebem a luminosidade do dia, caso de Inês Seidler. Outros só sabem que a noite chegou porque o calor do sol foi embora. É assim para a pedagoga Denise Pacheco.
Apesar da restrição visual, eles percebem o mundo colorido. Deliciosamente vivo, como é para outra cega, Andréia Coelho. Denise, Inês e Andréia têm suas cores preferidas: verde, rosa e azul, respectivamente. São vaidosas, gostam de brincos, colares, salto alto e cores… Muitas cores!
Denise conta que seria mais triste se não passasse seu batom vermelho pela manhã, não escolhesse um dos brincos da coleção com 15 peças, e seguisse para o trabalho na Associação Catarinense Para Integração do Cego (Acic). Lá, é conhecida como uma mulher elegante. Foi dela a idéia de fazer o primeiro curso de automaquiagem para cegos em Santa Catarina:
- Foi muito gratificante. Muitas mulheres nunca tinham tocado o rosto. Descobriram-se no curso.
Cega desde os seis anos, Denise gosta do verde porque lembra de uma sandália verde-limão que tinha e amava. A pedagoga defende a autonomia dos cegos. Não acredita que os deficientes visuais precisem de uma moda específica: etiquetas em braille, que possam informar sobre cores e tipo de lavagem necessária à peça, são suficientes.
- Nosso corpo é como o de todo mundo. Cada um deve descobrir como escolhe e guarda suas roupas. Eu costumo fazer cortes diferenciados nas etiquetas para identificar cores. Na hora de comprar, vou pelo tato - diz.
Eliana Gonçalves, coordenadora do curso de Moda na Udesc, concorda com Denise. Acredita que grifes devem investir em peças mais fáceis de vestir, com menos abotoamento:
- A moda deve ser mais funcional para os cegos. Mas esteticamente não tem por que ser diferente. A deficiência visual não os impede de receber informações sobre moda, apenas a consomem de outra maneira.
Eliana desconhece marcas que tenham coleções que levem em conta a deficiência visual, disponibilizando, por exemplo, etiquetas em braille. Ela ressalta que o investimento é alto e envolve a cadeia de produção. Por isso, uma coleção para cegos deve ser bem pensada.
07/novembro/2010
JornalZeroHora
Caderno Donna











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