Os 20 anos do CVI-Rio

Pátio do CVI-Rio mostrando a grande árvore que cobre a estrutura dos contêineres.

O CVI-Rio completa 20 anos de fundação. Como falar destes 20 anos de história, sem falar em sonhos, projetos, ideologia para amparar o projeto, muita devoção e empenho, tolerância à frustração, fracassos, êxitos, acertos e erros, recuos e avanços, planejamento, renovação e, além de tudo, trabalho, trabalho, trabalho?

Quando o CVI-Rio foi fundado no ano de 1988, estávamos vivendo no Rio uma época de esvaziamento do movimento que formou e mobilizou, por toda a década de 80, as principais lideranças que levantaram e encaminharam as principais demandas em relação à defesa dos direitos das pessoas com deficiência. O movimento adquiriu força e expandiu-se a partir do ano de 1981, com a promulgação pela ONU do Ano Internacional das Pessoas Deficientes (AIPD). Teve seu ponto de culminância, durante a Assembléia Constituinte, onde as lideranças do movimento exerceram uma atuação fundamental para que a Constituição de 1988 contemplasse vários capítulos com os direitos das pessoas com deficiência. Após esta inscrição, com o reconhecimento de que este segmento social deveria ascender à condição de pessoas com direitos humanos assegurados constitucionalmente, houve avanços significativos, com a conscientização paulatina da sociedade para a necessidade de inclusão deste e de outros segmentos sociais, marcando a idéia da diversidade humana.

Neste momento, representando a culminância, com o posterior esvaziamento do movimento, surge a idéia da representação do movimento de vida independente no Brasil, por meio da criação do CVI-Rio. Esta idéia motivou um pequeno grupo de pessoas, representadas por Rosângela Berman Bieler, Sheila Bastos Salgado e Lilia Pinto Martins, a desenvolver o projeto, para sua posterior realização, com a fundação do CVI-Rio, no dia 14 de dezembro de 1988. A esta altura, o projeto já havia mobilizado um número significativo de pessoas, que participou da Assembléia de formação da organização.

Os primeiros tempos, no espaço contíguo ao escritório de uma das fundadoras, constituíram-se no investimento a parcerias, principalmente com o ROTARY CLUB do Brasil, para as despesas com a regulamentação da organização e a manutenção da infra-estrutura básica. Logo após, a transferência para o andar inferior de um imóvel na Tijuca, com os primeiros grupos de suporte entre pares acontecendo. Formou-se uma pequena equipe de trabalho, na área administrativa. A premiação da Fundação ASHOKA para o projeto de desenvolvimento do CVI-Rio, direcionada a Rosângela Berman Bieler, foi o incentivo maior para a formação de uma equipe técnica básica.

Em 1991, por meio da parceria com o Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, na pessoa do Prof. José Luis Mendes Ripper, o CVI-Rio obteve a cessão de espaço para fixação de sua sede, nas dependências da Universidade. Esta foi a circunstância básica que permitiu a ampliação do CVI-Rio, estendendo os serviços para sua diversas áreas de atuação. Foi também o tempo de investir nos primeiros eventos, até mesmo de cunho internacional, que projetaram o CVI-Rio como importante veículo de formação e divulgação de uma nova maneira de compreender a deficiência.

Ao longo dos primeiros anos, parcerias fundamentais vieram agregar-se ao desenvolvimento do CVI-Rio, como a Fundação VITAE – Apoio à Cultura, Educação e Promoção Social; a ICCO - Organização Intereclesiástica de Cooperação e Desenvolvimento e a CORDE - Coordenadoria Nacional para Integração da PPD e Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro.

Em 1994, os primeiros contratos de prestação de serviços com a CEDAE e o TRT-RJ, seguidos pelo contrato com a PETROBRAS, em 1998, para a formação e implementação do SAC-PETROBRAS, mantido até o momento presente.

Nesta retrospectiva, não há espaço suficiente para reproduzir todo o histórico do CVI-Rio, nestes 20 anos de existência. Por este motivo, penso que o fundamental é frisar a importância de sua posição inovadora, tanto na criação de serviços fora dos padrões já existentes na área, como também no aspecto de defender conceitos novos, transferindo a deficiência para a área de desenvolvimento humano e social.

O CVI-Rio, sustentado pelos princípios básicos de fortalecimento e promoção da inclusão social das pessoas com deficiência, desenvolve suas ações baseadas na idéia de que a pessoa, antes de sua deficiência, deve ser realçada, para retirá-la de uma visão depreciativa e resgatar seu poder, projetando-a para uma vida ativa, participativa e cidadã.

Neste sentido, “vida independente” significa creditar à pessoa com deficiência seu poder de ser responsável por suas ações, fazer-se representar por conta própria, tomar decisões, fazer escolhas e assumir seus desejos.

Independente do grau ou severidade da deficiência, a autonomia das pessoas com deficiência avalia-se mais por sua condição de responder por suas ações e gerir a própria vida, do que por sua capacidade de mobilizar-se, ou realizar atividades por conta própria.

Além do mais, a deficiência, mais do que como uma “incapacidade”, deve ser compreendida como uma “desvantagem” a partir da relação que a pessoa estabelece com o meio em que vive, deslocando a incapacidade depositada na pessoa, para as condições sócio-ambientais, quando estas tornam-se restritivas, em função das barreiras físicas, humanas ou sociais que colocam.

Estes princípios básicos que regem o movimento de vida independente, na realidade são precursores de uma compreensão atual ultra avançada e que estão presentes na Classificação Internacional sobre Funcionalidades (CIF), deslocando a deficiência da área da saúde, para a área de desenvolvimento social; e na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada este ano pelo Brasil, na qual 192 países participaram de sua discussão e elaboração, com ampla representação das pessoas com deficiência.

O CVI-Rio, trazendo para o Brasil, a representação do movimento de vida independente, atualmente formado por outros 20 CVIs distribuídos em vários estados brasileiros, e liderado pelo Conselho Nacional dos Centros de Vida Independente (CVI-Brasil), considera ter dado uma grande contribuição para este avanço, na medida em que defendeu posições inovadoras e princípios básicos que deram uma nova compreensão para as pessoas com deficiência, pessoas com uma singularidade e identidade própria, e capazes de direcionar-se para a construção de projetos de vida apontando para o crescimento pessoal e a formação de relações transformadoras.

Nós, de sua equipe, trabalhando incansavelmente em torno desta ideologia, sentimo-nos recompensados por esta trajetória, agregando experiências, aglutinando pessoas, estabelecendo parcerias e expandindo conceitos e serviços que levam em conta o poder das pessoas com deficiência quando retiradas de uma zona de invisibilidade.

Que este sonho prossiga em defesa de conquistas mais amplas e que contemplem este Todo, traduzido pela diversidade humana.